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O medo de não voltar vivo

Leio várias pesquisas, numa época em que estão na moda e existem na praça para tudo, e procuro, ao analisá-las, tentar descobrir o que realmente pensa o povo sobre os problemas que o aflige. Não simpatizo com as porcentagens, vou direto aos números absolutos para que se possa aferir o que de chocante eles nos dizem, pois falam mais do que as palavras.

Nessa direção minha maior supresa foi constatar que a primeira preocupação das pessoas não é a corrupção, cuja exposição é bombardeada há três anos, diariamente, pela TV, mas, supreendentemente, é a segurança, a defesa da vida, graça que Deus nos deu e nos faz participar da beleza do mundo.

Voltamos assim às primeiras preocupações do homem desde os tempos em que ele pisou na face da face da terra: a primeira também era a segurança, e isso o levou a trepar nas árvores, a viver nelas, com receio dos predadores e dos inimigos que o matavam para comer. Depois, a segunda era com a comida, pois sem ela não podia viver e a terceira foi o vestiário, para, cobrindo-se de peles, enfrentar o frio. Quando descobriu o domínio do fogo teve uma ajuda substancial para sobreviver às eras glaciais. Agora, depois de séculos e séculos, ele volta a ter a segurança como sua primeira preocupação.

Petrônio, o árbitro de todas as elegâncias em Roma, grande poeta, autor do Satiricon, por outro lado, disse que o medo criou os deuses, porque, esgotados os meios materiais para defender-se, foi buscar um ser maior a quem pudesse recorrer nos momentos de aflição e temor.

Muitos séculos depois, buscando proteger-se, Hobbes, o grande inventor do contrato social, diz que também o medo levou ao desenvolvimento da civilização, ao criar o Estado para possibilitar à comunidade viver sem o “medo continuado da morte violenta”.

Pois tudo isso passa pela minha cabeça quando vejo que o Estado, criado para defender o homem da violência, fracassou.

Minha experiência no Senado foi de que, ao votarmos as leis para melhorar a segurança, ninguém se preocupava com a vida. Quando o senador Taques apresentou um projeto classificando como hediondos os crimes de corrupção e o emendei pedindo que se considerasse o mesmo para o homicídio, consegui a custo o apoio apertado dos senadores, mas o plenário da Câmara o derrubou, pois achava que ia enfraquecer o projeto contra a corrupção, que era mais importante do que matar, do que a vida.

Termino tremendo dos pés a cabeça quando leio que em São Luis mataram-se, em 2017, 630 pessoas, e, neste mês de janeiro, até o dia 17, foram praticados mais 34 assassinatos. Em nossa ilha, que chamamos dos Amores.

Estado — lembrando de novo Hobbes, feito para nos dar proteção —, “Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes / Embuçado nos céus?” (Castro Alves).

Uma jornalista resumiu tudo isso numa frase: “O meu receio diário é sair de casa e não voltar viva.

José Sarney

 

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