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Uma história bem contada

Quando mudei o meu título eleitoral para o Amapá, o fiz porque, filiado ao PMDB, o Diretório Estadual do Partido estava sob o comando de Renato Archer e Cid Carvalho, então tornados meus adversários, e eles não admitiam dar-me legenda para concorrer ao mandato de senador.

Eu estava recebendo apelos não só do Maranhão, mas de todo o Brasil, para que concorresse ao Senado, pois se julgava necessária a continuidade da minha presença na política — ainda mais com os problemas que estavam surgindo no governo Collor, que começara com confisco da poupança, no famoso Plano Zélia (de Zélia Cardoso de Melo, Ministra da Fazenda), que bloqueara todo o dinheiro do povo brasileiro que nos bancos ultrapassasse cinquenta mil cruzados novos (a moeda de então).

Meu desejo era retirar-me da política e resgatar minha paixão pela literatura, muito prejudicada por ela, a começar por tomar todo o meu tempo. Mas, já que o Maranhão não me dava legenda, passei a receber convites de Goiás, Amazona, Roraima e outros estados.

Foi quando chegou uma delegação do Amapá, chefiada pelo Governador Nova da Costa e composta por grandes lideranças do novo Estado. Vinham oferecer a legenda do partido para que por lá eu fosse candidato. Sucumbi a esse convite, que para mim tinha um grande apelo intelectual: o Amapá estava ligado a nós por um forte vínculo, pois pertencera ao Estado do Maranhão e Grão Pará, e eu bem conhecia a nossa História comum. A pré-amazônia começa nos campos alagados da Baixada Maranhense, e todo o oeste do Maranhão está localizado, como o Amapá, na área amazônica, que é assim também minha região.

Além disso fora sob minha Presidência que o Território do Amapá se tornara Estado. Ali eu tinha fundado a Universidade Federal e começado a estrada que ligaria Macapá à Guiana Francesa, através do Oiapoque, e construído a ponte sobre o grande Rio Araguari. Esse rio tinha sido considerado pelos franceses como fronteira da Guiana, criando o problema do Contestado, que atravessara o século XIX e só se resolvera pelo Laudo Suíço, em que o Brasil ganhou pelo notável trabalho de Rio Branco. Mas o Amapá já se tornara, de fato, brasileiro pela luta dos amapaenses, com grandes heróis e muitos mártires, sob o comando de Veiga Cabral, o Cabralzinho.

Ao amanhecer do segundo dia de minha chegada ao Amapá, ao abrir a porta da casa alugada onde me hospedara, fui surpreendido por grande quantidade de mulheres com filhos nos braços, talvez mais de cem, que vinham conhecer e agradecer ao Presidente o Programa do Leite, que dera mais de oito milhões de litros por dia às nossas crianças, do nascimento aos cinco anos.

A partir desse instante o Amapá conquistou meu coração e tem hoje minha gratidão, pois seu povo deu-me três mandatos de Senador, para completar 40 anos de Senado, onde fui presidente por oito anos.

Foi assim e por esses motivos que me tornei político do Amapá, onde tenho a consciência de que realizei um grande trabalho.

Naquela época, lá e no Maranhão, os adversários que sempre temos espalharam que eu tinha tomado essa atitude porque não me elegeria no Maranhão. Não era verdade. As pesquisas e a maneira com que o povo da minha terra me recebeu quando saí da Presidência mostravam seu grande apoio e uma eleição certa. Teria a grande vitória que tive no Amapá.

Agora, volto meu domicilio ao Maranhão, frustrando a quase totalidade do povo amapaense, que queria que eu fosse de novo senador pelo estado. Não quis ser em 2014, não quis agora: seria manter uma posição que está aberta a meus companheiros. Meu gesto provocou uma grande comoção no Amapá, mas o povo compreende minha decisão: onde está meu umbigo deve estar meu corpo.

Esta é a bem contada história da minha sorte de ligar uma parte da minha vida ao Amapá e do meu amor à terra em que nasci.

José Sarney

 

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