Minha Semana Santa

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Mais de uma vez Marly e eu, com o casal Emília e Álvaro Pacheco — meu saudoso amigo —, pegamos o táxi do inesquecível Seu Pedro, uma Mercedes preta, e, durante a Semana Santa, fomos pelo interior de Portugal até Santiago de Compostela, aonde sempre chegávamos na quinta-feira à noite e nos hospedávamos no Hostal dos Reis Católicos, ao lado da Catedral, com sua praça cheia de peregrinos, chegando de todos os lugares do mundo para assistir às solenidades litúrgicas, desde as procissões dos encapuçados até as bênçãos do óleo e da vela, na Matriz de novecentos anos, que fica, durante todo o ano, com sua chama acesa, com o cheiro de incenso do Botafumeiro invadindo e perfumando toda a igreja, mas sem a missão do passado: eliminar o odor dos corpos sem higiene que assistiam a missas e sermões na Idade Média.

 Lembro também da Sexta-Feira da minha infância. Recordo estes espaços de tempo da vida sempre agradecendo as bênçãos que Ele me deu.

A infância é o tempo da estreita amizade com Deus. Quando ainda não chegaram as preocupações e dúvidas que nos darão o saibo da amargura, que fica sempre com uma parte dos nossos anos.

Deus era a sombra que eu sabia ter me dado a vida e que me assegurava a Eternidade, que naqueles tempos não era o céu prometido, mas o paraíso que ele me Ele dera para viver na Terra: a casa do meu avô, o engenho, os campos verdes, os sons dos sinos tocando nas alegrias, até que com os anos a vida passasse a ter o cheiro azedo da garapa.

Nesse tempo, meu Jesus Cristinho morava na cidade de São Bento, onde despertei para a vida. Ele estava na igreja entre as colunas pintadas imitando mármore. Nos tempos da Paixão, eu chorava com a revelação de que homens maus o tinham crucificado, pregado na cruz, trespassado por lança e que Judas o traíra.

O tempo da Quaresma era a oração e o silêncio em que os nossos jogos e sorrisos não podiam ser exuberantes porque Jesus iria morrer. A procissão do encontro, o Bom Jesus da Cana Verde, o lava-pés, o canto da Verônica e as estações da Paixão. E nos preparávamos para malhar o Judas no Sábado de Aleluia.

Tudo tinha um sentido misterioso, em que a razão não entrava, só a emoção. A Igreja governava as nossas referências, os domingos, as ladainhas, o rosário, as nossas súplicas e conversas com Deus. Minha mãe nos ensinava tudo sobre o segredo da vida, do Céu e da Terra, a Paixão de Jesus.

Depois veio a mocidade, a adolescência e o domínio da batalha de vida. Nesse tempo não existe mais a abstração, é o momento contínuo de conquistar a base, a realidade dos espaços de nossa preparação para a vida. A Paixão fica reduzida na nossa esperança da ressureição, como disse o poeta francês Pierre Emmanuel: “Este imenso vazio entre a morte de Deus e a esperança de vê-lo ressuscitado.”

Dois mil e vinte e seis anos depois o Cristianismo não conseguiu transformar o homem, que vive ainda prisioneiro da violência, do pecado, como síntese de todas as escravidões do corpo e da alma.

O autor mais lido da humanidade é Cristo. Um homem que, paradoxalmente, não escreveu nada, ao que se sabe, apenas algumas palavras na areia. Contudo, a força de sua doutrina desencadeou uma revolução na história do mundo pela palavra. Ele revelou, num tempo de escravos e senhores, de uma sociedade perdida pela divisão de castas, condições e submissões, uma verdade simples: a de que todos somos irmãos, todos iguais, todos filhos de Deus e todos destinados à salvação. Ele nos ensinou a buscar a paz interior. Não a ausência da guerra, mas a presença da paz dentro de nós mesmos, sem nada a cobrar, sem ressentimentos, sem a desgraça corroendo o corpo e a alma pela escravidão da maldade.

 Cristo nos ensinou a perdoar e nos assegurou o caminho da salvação. Encontrar a felicidade na certeza de que o homem tem um destino transcendental. “O fim sem fim do começo de tudo”, como afirmava o Padre Vieira.

E hoje, no momento da velhice, é Ele que estará ao meu lado no meu Encontro, com Deus me indagando: “José, onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas?” E eu Lhe responderei: “Estão aqui neste balde de juçaras, sofrimentos e gratidão.”

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