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Uma só e muitas línguas

Academia Francesa, Paris, França, 23 de junho de 2005

Quando a Academia Francesa foi fundada, em 1635, num mundo conhecido, o Brasil era uma indefinida colônia portuguesa, numa América fantástica e de sonhos. Era o tempo da formação do Estado francês, que remonta a Filipe o Belo, conheceu grande impulso sob Henrique IV e foi terminada pelo Cardeal Richelieu. O Brasil era um desenho, linhas imprecisas de um país, cuja única definição estava na cabeça dos reis e navegantes lusitanos. Era tudo mistério e lendas, inventadas e divulgadas na ingênua literatura dos viajantes.

Sou um homem do Norte do Brasil, das fraldas da floresta Amazônica, onde até hoje vivemos o primeiro dia da criação, em que as águas estão se separando das terras. Ali começa minha pátria brasileira, no Estado do Maranhão, e como dizia o grande poeta português Fernando Pessoa, tenho outra pátria: “a língua portuguesa”. A pátria da lusofonia, de 230 milhões de pessoas escolhidas pelos deuses do destino, a pensar e falar no mesmo idioma.

A minha cidade São Luís, capital do Estado, foi fundada por franceses, 23 anos antes da criação desta Academia. Eles saíram de Cancale e Saint Malo para a aventura de construir a França Equinocial, numa missão civilizadora, ao contrário de outras que ali tentaram se estabelecer, comandadas por companhias de negócios.

A missão francesa era uma ação de Estado, levava botânicos, artistas, artesãos, oleiros e construtores, sem faltar o ideal de uma convivência religiosa entre os protestantes, como La Ravardière, o comandante, e os católicos representados pelo Barão de Molle e de Gros Bois, Senhor de Sancy, e pelos irmãos de Razilly, sob a proteção das orações de quatro frades franciscanos saídos do seu convento do Faubourg Saint Honoré. Maria de Médici entregara a eles um pavilhão com a Flor de Lis, as armas do Rei Menino Luís XIII. Era uma tentativa de participar do testamento de Adão que Francisco I disse que queria ver, onde constava a partilha do mundo entre a Espanha e Portugal, o sonho fracassou. E Luís XIII não pôde ser, como queria o cronista da missão, Claude d’Abbeville, rei de três coroas: França, Navarra e Maranhão. Foi por causa do malogro desse sonho que a Academia me ouve em português.

Esta língua que era quase um dialeto do espanhol foi no século XVI e XVII a língua dos navegantes, dos marinheiros que dominavam todos os mares nas descobertas dos caminhos da América e das índias. Língua de corte na África, como foi o francês na Europa. Dos matriarcados de Moçambique, falado nas costas ocidental e oriental do Continente negro, chegou a Goa, na Índia, atravessou o estreito de Malaca, foi a Macau e à costa da China, chegando até Nagasaki, onde deixou e recolheu palavras, no delírio de São Francisco Xavier em cristianizar o Japão.

Depois, a língua portuguesa, expulsa de suas colônias pelos holandeses, não tendo mares onde fosse falada, encontrou as vastidões das terras do Brasil, continuou o seu destino como língua de viajantes, faiscadores, bandeirantes e aventureiros. Penetrou nas matas, nos rios e só parou nos contrafortes dos Andes ou na selva intransponível da Amazônia. E ali encontrou, atrás das montanhas e da mata, o espanhol o idioma do qual se separara na península ibérica.

Nossas academias são guardiãs deste patrimônio que são as línguas, saídas do mesmo berço do Lácio. Não queremos perder nossas identidades nem a maneira de pensar e viver. No passado, tivemos a colonização territorial hoje, não seremos perdoados, se aceitarmos a colonização cultural, que começa pela erosão da língua.

Quando a Academia Francesa foi fundada vários livros sobre o Brasil — que diríamos fundamentais — já tinham sido escritos por franceses. Primeiro os de Thevet, em 1556, e os de Léry, em 1578, relatando a aventura civilizadora de Villegaignon no Rio de Janeiro.

Em nossos primórdios, os padres Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux, o primeiro na Histoire de la Mission des Péres Capucins em l’Isle de Maragnon, o segundo, na Voyage au Nord du Brésil, em 1614, seriam os primeiros a descrever a fauna, a flora, os índios e como estes viam as estrelas e o firmamento. Estes livros impregnaram o imaginário europeu. Índios brasileiros dançaram em Rouen para Henrique II e aqui, na catedral de Notre Dame, índios da minha terra foram batizados, na presença do Rei menino Luís XIII e da Regente. Rouen e Paris pararam, na curiosidade dos nativos do Novo Mundo. Malherbe fez-lhe poemas e escreveu cartas descritivas. Nos Ensaios, em 1580, Montaigne forjou a imagem do bon sauvage. Condescendente com a antropofagia, escreveu que era mais conveniente comer um homem assado que lhe arrancar pedaços vivo.

Falamos de episódios ocorridos há quase cinco séculos. Mas, o essencial é que o orgulho da presença francesa permaneceu no imaginário popular. Imaginário que louva os fundadores, pois até hoje no seio do povo, aqui e ali, são vistos cabelos loiros e olhos azuis, reminiscências do sangue de Cancale e Saint Malo. Em São Luís, por exemplo, a estátua da cidade não é do vencedor português e sim a do francês La Ravardière. O Hotel de Ville chama-se Palace de La Ravardière. A estátua da Cidade é dele, a avenida principal chama-se “dos Franceses” e os logradouros têm nomes franceses. É a força da França, que perdura na alma popular, em suas canções, em sua magia de pensar. A França ali é aquela mulher bela, esvoaçante, símbolo da liberdade que flutua na alma rebelde da cidade.

Certa vez, um repórter me fez a pergunta comum de todas as entrevistas sobre literatura: “Que livro o senhor levaria para ler na eternidade?” E ficaram surpresos, pois, não respondi — Dom Quixote. Certamente eu não passarei sem ele, o cavaleiro da triste figura, que traz saudades do futuro e é uma sombra eterna. Mas respondi: Memoires d’Outre Tombe, de Chateaubriand. Gosto de acompanhá-lo à beira do mar de Saint Malo, marés que vão e vêm com saudades do monte Saint Michel, viajar no tempo e no espaço com ele: “J’ouvre les yeux, comme Auguste, pour voir les Trirèmes dans les mouillages de la Sicile” e depois, ainda no início de sua vida, voltar e não ver mais nada, “tout avait disparu, hommes et monuments”.

A Independência do Brasil está ligada à História da França. Quando Napoleão invadiu a península ibérica e os exércitos de Junot chegaram a Portugal, o Príncipe Regente d. João, com a Rainha d. Maria I e sua corte, se refugiou no Brasil. Instalou-se no Rio de Janeiro, sob a proteção da esquadra inglesa. Quando d. João VI voltou para Portugal deixou o filho, que proclamou a Independência do Brasil. Durante quase todo o século XIX tivemos a única monarquia na América do Sul, a dos Bragança que era também dos Bourbon.

Em 1816, chegou ao Brasil a missão francesa, integrada por artistas como Grandjean de Montigny, os irmãos Taunay e Debret, que deixaram os mais preciosos retratos não só daquele tempo como também da vida cotidiana ligada aos acontecimentos da Independência.

A riqueza da literatura francesa permitiu que, ao longo do tempo, ondas sucessivas ou simultâneas de influência irrigassem a literatura brasileira nascente. Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Apollinaire foram nomes que inspiraram as formas e imagens da poesia brasileira. Foram eles que asseguraram o substrato do “movimento antropofágico”, expressão de vanguarda da Semana de Arte Moderna de 22, marco da moderna literatura brasileira.

A França se expandiu pelo mundo, e o francês e o português não são apenas um meio de comunicação para nossas comunidades de nações; não são apenas elementos aglutinadores para nossas culturas. Nossas línguas devem ser, acima de tudo, vetores de amplos movimentos de renovação cultural e de cultura e, por conseguinte, de desenvolvimento. Elementos decisivos em nossa estratégia comum de elevar os níveis de progresso e bem-estar de nossas sociedades. Os universos lusófono e francófono tornaram-se amplos e diversificados. Incorporaram formas de sentir e de expressar nascidas da adaptação do gênio francês e do gênio português às culturas americanas, africanas e asiáticas. O português e o francês revelaram-se plásticos, abertos à novidade e à transposição cultural. Criaram patrimônios que permitem comunicação direta e instantânea e integram culturalmente um largo número de países. Neles afirma-se um saudável pluralismo cultural, que nos coloca diante de um duplo desafio: identificar e aperfeiçoar os traços culturais que nos são comuns e preservar e valorizar os elementos que nos diferenciam. À francofonia e à lusofonia se colocam, portanto, desafios comuns, desafios que devem nos unir na resistência à uma globalização predatória.

A amizade entre o Brasil e a França passa pela amizade entre pessoas. Quero recordar as relações entre Jorge Amado e André Malraux. Foi a generosidade do ministro francês que permitiu ao ex-banido brasileiro voltar ao país que o acolhera no primeiro exílio.

Madame le Secrétaire Perpétuel, chers confrères,

Somos todos, cidadãos da língua portuguesa, cidadãos da língua francesa, herdeiros de uma única pátria, o Lácio. Caminhamos daquela língua latina que se degradava e se reformava e se renascia no coração de uma civilização em construção. Falamos juntos o provençal, a langue d’oc, e nela nos filiamos a um universo de latinidade, que nos une numa visão generosa do mundo. O provençal resiste no cancioneiro popular, no romance popular, e a história de Carlos Magno e os Doze Pares de França alimenta ainda a fantasia dos meninos do nosso sertão. Continuamos sendo, no que temos de melhor, projetos de heróis de cavalaria.

Nos orgulhamos, por exemplo, de que um dos bisavôs de Maurice Druon seja o brasileiro-maranhense Odorico Mendes, que apresentou, em nossa primeira legislatura depois da Constituinte de 1823, logo após a Independência, o primeiro projeto de abolição da escravatura no Brasil. Druon é um símbolo da liberdade, compagnon de la libération, autor deste símbolo maior que é o Chant des Partisans, em que os tambores da guerra e do sacrifício nos soavam não como uma abstração num país distante, mas nos fazia saber que “dans la nuit la liberté nous écoute”. Menino, sofri a queda de Paris, vibrei quando De Gaulle e Leclerc desfilavam nos Champs Elysées. Depois conheci o grande romancista, o historiador, o humanista e o pensador. Pude recebê-lo na sua cidade de São Luís do Maranhão e pude, honra maior, tornar-me seu amigo.

Não esqueço comovido, Druon ajoelhado, numa manhã ensolarada de São Luís do Maranhão, junto à estátua do seu bisavô, tradutor de Homero e um dos grandes clássicos da literatura brasileira e portuguesa.

Em todos os tempos são raras as pessoas que se projetam além de sua época com uma dimensão que rompe as fronteiras da história. Claude Lévi-Strauss é um desses seres raros: teve nas ciências humanas o impacto idêntico ao de Marx, Freud, Darwin. Ele ilustrou ainda mais o Collège de France como titular da cadeira de antropologia social. Em qualquer lugar do mundo é reverenciado.

No discurso em que recebeu Claude Lévi-Strauss aqui na Academia Francesa, Roger Caillois, o grande pensador, sociólogo e ensaísta, dizia que “sua obra é tão rica, tão diversa, tão complexa, por natureza tão labiríntica” que não ousava analisá-la. Ele marca uma etapa na história do pensamento, é uma referência da aventura do homem.

Para saudar Claude Lévi-Strauss, nós, da Academia Brasileira, temos grandes motivos. Desde 1935 o Brasil se tornou o palco de sua descoberta fundamental, a de que o homem constrói sua cultura, como sua linguagem, em estruturas básicas, que independem de nossa visão ocidental de progresso.

No final de 1934, o diretor da École Normale Supérieure, o convidou para ser professor de Sociologia na Universidade de São Paulo. Abrindo este livro de uma beleza que cativa todos os leitores, Tristes Trópicos, Lévi-Strauss diz que detesta as viagens. Mas sente necessidade de contar como aconteceu o processo que o levaria a compreender mais profundamente o ser humano, abolindo, de uma vez por todas, a ideia de que os valores humanos são melhores em algumas sociedades, abolindo toda e qualquer base para o racismo.

Em um de seus livros mais recentes, em que fala sobre a arte — Regarder, Écouter, Lire —, Claude Lévi-Strauss diz: “Suprimir ao acaso dez ou vinte séculos de história não afetariam sensivelmente nosso conhecimento da natureza humana. A única perda insubstituível seria a das obras de arte que estes séculos tivessem visto nascer. Porque os homens só se diferenciam, e mesmo só existem, por suas obras. Só elas dão a evidência de que ao longo do tempo, entre os homens, alguma coisa realmente aconteceu.”

Eu, pessoalmente, tenho também que agradecer a Lévi-Strauss por ter me distinguido com uma amizade.

Senhoras Acadêmicas e senhores Acadêmicos,

Esta reunião representa o encontro de duas academias que são maiores que a soma de nós mesmos. A Academia Francesa, pelos seus membros, pode avaliar o que significa para nós, Acadêmicos brasileiros, a dimensão histórica deste encontro.

A Academia Francesa é um tesouro da humanidade. Se o mundo acabasse e restasse apenas a História e o acervo da Academia Francesa, seria possível reconstruir toda a História da humanidade, seus costumes, seus personagens, a vida mesma no que ela tem de mais complexo; seria possível refazer o próprio pensamento, a sabedoria verdadeira que é a chave do passado e do futuro.

Senhoras Acadêmicas, Senhores Acadêmicos,

Quando eu entrei para a Academia de Letras da minha província tinha 23 anos. Meu avô era um rude lavrador do nordeste brasileiro, retirante das secas fugindo da tragédia e da miséria. Tinha o dia e a noite e sete filhos. Falava por provérbios e era um repositório da sabedoria popular, sabedoria que aprendi e muitas vezes utilizei em meu livros. Ao ser eleito escrevi-lhe e disse da minha alegria e do que aquilo representava para minha vida. Ele ao receber a carta tomou-se também de grande júbilo e, no povoado de casas de palha, começou a soltar foguetes, por onde começa e termina a pura alegria dos pobres lavradores de minha terra.

Sua vizinha, diante daqueles fogos, perguntou-lhe:

— O que aconteceu seu Assuéro?

Ele respondeu:

— Meu neto José entrou para a Academia.

— E o que é Academia, seu Assuéro?

Ele respondeu:

—Eu não sei, mas sei que é coisa grande!

Coisa grande no imaginário popular, maior ainda na cultura de nossas pátrias.

Cultura que hoje necessita de vigilante proteção. A sociedade industrial gera valores materiais. Os valores espirituais são deixados de lado pela competição. Já Pascal assinalava que o motor da ação humana é o desejo de reconhecimento, o desejo de aceitação social. Numa sociedade voltada para o consumo, para a riqueza, há uma constante e perigosa diminuição dos elementos que construíram a nossa civilização. O caminho para o jovem aproxima-se rapidamente do niilismo e do hedonismo pervertido, da tentação fácil da droga e do egoísmo.

Diz-se que o desenvolvimento econômico, gera uma potência política e cultural. Porque não pensar também que uma potência cultural gera desenvolvimento econômico e político? A cultura é, hoje, fonte de grande fluxo de comércio. Para sermos um grande espaço econômico temos de ser um grande espaço cultural. Este o caminho moderno, o único que pode gerar a riqueza permanente de uma nação.

Chers confrères,

Escrever é uma compulsão. Dividido em duas vertentes, da política e da literatura, sempre precisei encontrar tempo, ao longo de minha existência, em meio à urgência que toma conta de todos os atos da vida política em nossos dias, para este diálogo com um outro que está em nós e com quem trocamos nossos sonhos, imaginamos nossos personagens, discutimos e escolhemos as palavras e as frases para dizer o que nossos atos não podem dizer: eternizar instantes, fatos, sentimentos, pensamentos, mundos e histórias imaginárias, receber e transmitir saberes. A arte de Deus, a criação pela palavra escrita. Dostoiévski e Baudelaire afirmaram a necessidade da arte. Escrever foi, para mim, desde moço, um ato necessário.

Daí talvez minha convicção inabalável de que tudo vai acabar, menos o livro. O livro é a grande descoberta tecnológica da humanidade. O livro não precisa de energia! O livro cai e não quebra, pode ser levado por nós a todo e qualquer lugar. No livro está registrado todo o conhecimento, todo o amor, toda a fé.

O livro é o verdadeiro difusor da cultura, o que fixa o conhecimento, o que torna iguais o pobre e o rico, o que concretiza a liberdade de expressão, a defesa de novas ideias. No livro nasce a revolução e garantia dos direitos, no livro se preserva o passado e propões o futuro. No livro começa a computação.

Entramos no século XXI com o desafio de universalizar o livro. O caminho para uma civilização que seja digna deste nome passa pelo livro. Ele é que nos permite pensar as relações entre Ocidente e Oriente, pobres e ricos, cristãos e mulçumanos. O livro abre a porta do conhecimento, da ciência, da arte. O livro transforma o efêmero em permanente, o humano em imortal.

Senhora Secretária, senhor Presidente.

Hoje estamos unidos em nome de uma amizade entre nossos povos, de nossas raízes comuns e de nosso passado. Permaneceremos unidos por nosso futuro. A crença nas nossas línguas, nas nossas literaturas, na nossa cultura como contribuição fundamental para a esperança.

Vivemos num tempo de desigualdades e injustiça social, num mundo de discriminações e competição, voltado para a distância cada vez maior entre os povos e as pessoas, entre os ricos e os pobres. A diferença leva, hoje, à perda de identidade, que muitas e muitas vezes é só o que têm famílias que foram atingidas pela guerra ou pela pobreza. A preservação de nossas línguas, de espaços culturais é a melhor forma de aproximar as pessoas e os povos, regatando as identidades pessoais, locais e nacionais.

Comungamos, a Academia Francesa e a Academia Brasileira, de projetos idênticos. Além dos mares e terra que nos afastam, abre-se um espaço enorme para o encontro.

É com esse orgulho e esse sentimento que estamos aqui para louvar esta casa sagrada e eterna, neste ano em que comemoramos o Ano do Brasil na França, do qual faz parte esta sessão, o mais simbólico e significativo ato desta celebração de 2005.

Muito obrigado.

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