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Eleições para Presidente da República

Cadeia nacional de rádio e televisão, 14 de novembro de 1989

Brasileiras e brasileiros, 

Venho conversar com vocês, venho falar das eleições e da liberdade.

Depois de 29 anos, amanhã, no dia 15, 83 milhões de eleitores irão às urnas para eleger o Presidente da República em eleições diretas.

Temos o orgulho de proclamar que nós hoje somos a terceira grande democracia do mundo.

Correspondem a meu governo grandes conquistas institucionais. Os partidos deixaram de ser clandestinos. Acabamos com o preconceito ideológico. Todos os segmentos da sociedade ocupam seus espaços. Temos 22 candidatos. Convoquei a Constituinte; registrei as centrais sindicais; liberdade aos sindicatos; a anistia se concluiu; abri à participação dos trabalhadores a larga porta das decisões e eles hoje não são mais somente expectadores do processo político. As classes empresariais não têm mais receio do fisco a serviço de candidatos ou de apoios. Elas estão libertas do poder. Ninguém se sente ameaçado, coagido, receoso de represálias; ninguém tem dúvida de que seu voto vai valer; será apurado, contado, vai decidir.

Tivemos eleições em 85 para prefeitos das Capitais, municípios de segurança nacional, os quais extingui. Em 86, eu presidi eleições para deputados, senadores e governadores; em 87, o País viveu o clima de reivindicação, de efervescência da Assembleia Nacional Constituinte; em 88, tivemos eleições para prefeitos e vereadores de todos os municípios brasileiros; e em 89, temos a grande eleição de Presidente da República.

Todos os anos eleições e todas elas decorridas num clima de grande paz e de grande liberdade. Nunca se viu no País um clima de tamanha liberdade.

Agora, nesta eleição, estamos presenciando este espetáculo extraordinário.

Nas casas, no trabalho, nas ruas, as opiniões se dividem e ninguém tem medo de nada porque sabe que o que existe é a democracia, o florescimento da democracia, e eu disse, nas Nações Unidas: “o caminho do desenvolvimento passa pela democracia”. E ali nas Nações Unidas, eu assinei o tratado contra a tortura e penas cruéis, em nome do Brasil.

Portanto, esta é uma eleição livre. A mais livre, mais ampla e mais limpa de toda a nossa História. Sobre meus ombros recaiu a responsabilidade da construção de sua engenharia política.

A campanha decorreu em paz — todos são testemunhas —, assegurei as garantias e a tranquilidade nacionais. Nenhuma prontidão, nenhuma sombra institucional, nenhuma denúncia de interferência do poder público, porque está criada a base de uma grande sociedade democrática no País, que se exerce não só nos partidos mas nas associações, nos clubes, nas sociedades, nos grêmios, nos grupos de toda forma de participação e de organização.

Nós conseguimos fazer e organizar o cadastro eleitoral que está permitindo este fato extraordinário de que milhões de pessoas, em todos os recantos do País, exerçam o direito de voto em absoluta ordem e dentro da maior segurança e normalidade.

A lisura do pleito está presidida por uma Justiça Eleitoral isenta, sob a chefia do Tribunal Superior Eleitoral.

Vamos lembrar que em 1960, na última eleição, o nosso eleitorado era de apenas 15 milhões.

Hoje, nós temos 56% da população votando, e a eleição deixou de ser uma prática das elites, ela passou a ser a vontade de todo o povo, com a grande participação deste. E você, você que está me ouvindo, que é povo, você que é povão, não é mais, lembre-se, você não é mais o escravo do cabo eleitoral. Você é o cidadão respeitado, o dono da sua vontade, a brasileira e o brasileiro que exercem a sua cidadania exercendo o grande dever e direito do voto.

Nós não temos no País nenhum preso político, nós não temos nenhuma perseguição, não tivemos nenhum incidente. Estamos vendo este espetáculo extraordinário de nossas ruas. Bandeiras de todos os partidos e candidatos se entrelaçam; diferentes opiniões se afirmam; as músicas, de um e de outro lado, se misturam; os partidários se confraternizam, discutem, do jeito brasileiro, naquela saudável disputa democrática.

Debate-se, confrontam-se ideias e posições. Milhões acompanham pelos meios de comunicação, milhões lotam as praças públicas nos comícios e no Brasil inteiro nós estamos vendo as carreatas, conferências, atos públicos, passeatas, debates, entrevistas. Mas nós vamos verificar que dentro deste clima todo há uma coisa que não se vê, mas que é a base de tudo — é a liberdade. A liberdade permeia esse processo, e a liberdade é um bem cujo valor a gente só sabe quando se perde.

Nós todos — e é um convite que faço — somos obrigados a meditar sobre o significado destas conquistas e como nós chegamos até elas.

De minha parte, eu devo dizer que tenho a felicidade, a grande paz interior de ver o Brasil nesta hora, de testemunhar este instante e saber, de consciência tranquila, que eu trabalhei para este dia. Trabalhei com a visão da História, tive paciência, tive tolerância, tive humildade, lutei, esforcei-me, sofri e não somente eu preguei a democracia. Eu pratiquei a democracia com o meu exemplo.

Mas o que a todos nós importa é o Brasil. Esse Brasil que amanhã, no dia 15, vive a grande festa da democracia restaurada, da terceira democracia do mundo.

Eu lembro-me do nosso caminho percorrido. Não foi fácil. As dificuldades, os obstáculos, enfim, tudo o que atravessamos, mas que deixou ao País, mercê de Deus e do apoio do povo, a maior realização sonhada pelo gênero humano, viver e compartilhar a vida em regime de liberdade, de justiça sob o império da lei e da ordem, o Estado de Direito.

Nada foi capaz de desviar o Presidente da República do rumo que ele havia traçado.

No momento em que no mundo nós somos testemunhas de mudanças profundas, em que se desmoronam os muros construídos pelas ideologias e os sectarismos, o Brasil oferece o espetáculo de não levantar muros ao ódio, ao ressentimento e à divisão.

Que a eleição seja um instrumento da unidade nacional, porque, concluída a jornada, todos nós seremos parceiros do mesmo destino.

A transição democrática está concluída.

Deus abençoe o Brasil.

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