Apoiei a luta das mulheres pela ascensão social e participação nas altas decisões nacionais, como o fiz com as reivindicações de outras minorias. Assim poderiam tomar parte na História contemporânea do País.
O movimento feminista vem lutando para que as mulheres tenham os mesmos direitos dos homens: votar, trabalhar e até ter acesso à educação. As restrições a esses direitos marcaram sempre um tratamento de inferioridade ao gênero.
Ao longo de sua luta, desde a antiguidade, passando pelo Iluminismo, as mulheres tiveram muitas e heroicas lutadoras, como Olympe de Gouges (Marie Gouze), que, durante a Revolução Francesa, levantou a bandeira da igualdade feminina e, em razão disso, foi guilhotinada. Ela escreveu uma Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne), em que mostrava a diferença brutal entre os direitos, os ideais de liberdade e a exclusão feminina. Naqueles anos e nos que se seguiram, durante os séculos XIX e XX, as mulheres mantiveram sua luta e conseguiram algum sucesso. Hoje a luta se concentra no direito a salários iguais.
Fui pioneiro na luta pelos avanços dos direitos das minorias desde que assumi a Presidência da República, criando o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, para o qual chamei a grande Ruth Escobar. Ao mesmo tempo, eu me preocupava com a proteção dos deficientes e a igualdade racial. O que eu visava principalmente era a ascensão social dessas minorias, uma vez que o que mais nos chocava, e era evidente, era a ausência de mulheres e de representantes desses grupos no comando e nas decisões nacionais, como deve ser na vida pública em uma democracia, que deve contar com a participação das mulheres, de negros e indígenas, assim como de seus descendentes.
Em pronunciamento, em 2001, no plenário do Senado Federal, eu já pedia a urgência da Casa para este assunto sempre mais do que urgente: o direito de minorias. Buscando alcançar este objetivo, eu tinha apresentado, em 1999, projeto de lei estabelecendo as cotas raciais.
O problema da desigualdade sempre me preocupara. Assim, quando Presidente da República, consegui aprovação da Lei 7853/89, que se tornou referência internacional no apoio às pessoas portadoras de deficiência, e criei a Fundação Palmares, dedicada à ascensão social da raça negra. O que eu desejava era alcançar o que a ideia das cotas alcançara nos EUA, onde negros, deficientes e, sobretudo, mulheres já ocupavam os cargos de comando antes só ocupados por homens.
Hoje, no Brasil, segundo dados disponíveis até 2024, 38% dos cargos de alta liderança do Executivo Federal, incluindo secretarias executivas, presidências de autarquias e fundações estão ocupados por mulheres. São ainda ocupados por mulheres os cargos de Ministra do Planejamento, da Igualdade Racial, da Gestão e Inovação, do Meio Ambiente, da Ciência e Tecnologia e também do Ministério das Mulheres. E a Presidência do Banco do Brasil, um dos maiores do País, hoje é ocupada por uma mulher.
No Congresso Nacional, na Câmara, em 2024, 18% dos deputados eram mulheres e, no Senado, 15% — números certamente muito baixos, mas acredito que afirmativos da conquista das lutas femininas pela participação na política e na Administração Pública.
Como Senador, presenciei a revolução no Senado com a eleição da primeira Senadora da República, Eunice Michiles, em 1979, mulher que teve um grande desempenho nos trabalhos da Casa.
Não posso esquecer o quanto representou também na luta das mulheres a presença de minha filha, Roseana Sarney, a primeira mulher a ocupar a chefia de um Executivo Estadual, no Maranhão, que ela ocupou durante 4 mandatos, intercalados, exercendo uma liderança popular e política muito forte até hoje.
Não podemos deixar de citar o marco histórico na luta das mulheres com Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar a Presidência da República, com um governo em que ela tomou grandes decisões e serviu de inspiração para que outras mulheres tenham a ambição de comandar o País.
Assim, creio que o movimento feminista no Brasil — a luta das brasileiras por seus direitos — pode se considerar exitoso, pois as mulheres participam das decisões nacionais e comandam grandes empresas no setor público e no setor privado.
Quero assim dizer que me orgulho de minha participação na luta em favor da ascensão social das minorias raciais, de pessoas com deficiência, bem como da forte presença das mulheres na vida nacional, onde elas estão se afirmando cada vez mais pelo seu talento, pela sua grande capacidade de luta, sua inteligência e cultura.