O homem que carrega o tempo

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Carlos Igor Aboud

Ao Presidente José Sarney,

de um maranhense que o conheceu primeiro nos livros

e, depois, teve o privilégio de ouvi-lo contar a própria história.

Não sei precisar o instante exato em que compreendi que o tempo também sabe falar. Talvez tenha sido no modo como ele escolhia as palavras, com a serenidade de quem não disputa minutos, porque já atravessou décadas. Ou no silêncio entre uma frase e outra, onde havia tanto dito quanto no que era pronunciado. Diante de mim, não estava apenas um homem: estava uma vida em estado de permanência.

Há quem envelheça como quem se despede. Outros — mais raros — envelhecem como quem acumula, guardando o vivido não como peso, mas como substância. Conversar com o presidente José Sarney foi abrir um desses arquivos que não se fecham, porque continuam respirando mesmo depois que a conversa termina.

Enquanto eu ouvia, a história — essa que aprendemos em livros, datas e cargos — parecia encolher. Tornava-se evidente que ela não comporta, sozinha, a dimensão de um homem. O que se revelava ali não era apenas o personagem público, mas alguém que atravessou épocas inteiras com o corpo inteiro: regimes, expectativas, fraturas e recomeços. E que, ainda assim, permanecia disposto a narrar não para se perpetuar, mas para compartilhar.

Há uma elegância silenciosa em quem chega a esse ponto da vida sem a urgência de convencer. Ele não falava para afirmar grandezas, mas para oferecer memórias. Cada palavra carregava um Maranhão vivido por dentro, um Brasil sentido antes de ser explicado, um país observado com o olhar de quem já viu a esperança tropeçar — e, ainda assim, insistir em andar.

Ouvir alguém assim exige mais do que atenção: exige humildade. Porque chegamos com perguntas e saímos com camadas. Aprendemos que o tempo não embrutece quem se permitiu sentir; ao contrário, refina. Ali, o envelhecer não era ausência, era síntese. Não era desgaste, era desenho.

Quando me despedi, compreendi que levava comigo algo maior do que relatos políticos ou passagens decisivas da história nacional. Levava a

confirmação de que toda grande trajetória é, antes de tudo, profundamente humana. Que por trás dos nomes grafados em maiúsculas existem hesitações, afetos, escolhas difíceis — e uma rara coragem de permanecer sensível depois de tanto.

Aprendia uma lição: as pessoas não cabem nos resumos que fazemos delas. Elas só se revelam quando nos sentamos para ouvir sem pressa, sem expectativa de conclusão.

E talvez seja isso que mais me permaneça daquela conversa: não apenas a solenidade do vivido, mas o riso que o atravessa. Em meio às histórias, ele contou — com um sorriso quase juvenil — de um Natal em Nova York. Ele e dona Marly, caminhando sem pressa, entraram numa fila imensa, acreditando tratar-se de alguma loja disputada. Só ao final descobriram que esperavam, na verdade, para tirar fotografias com Santa Claus. Riram.

Ficaram. Guardaram o instante.

O Papai Noel americano, curioso diante daquele homem, perguntou: “Where are you from?”

Hoje, se eu pudesse responder por ele, diria outra coisa. Diria àquele Santa Claus que ele vem de um lugar mais difícil de localizar, mas impossível de apagar. Diria, em inglês simples e definitivo:

He is from history.

Da história que se escreve nos livros, sim — mas, sobretudo, da história que se conta sorrindo numa fila errada, num Natal distante, e que nos lembra que, por trás de todo tempo acumulado, existe sempre um homem capaz de se surpreender.

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