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A Palavra do Sarney

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A aprendizagem do Congresso

Passei 51 anos no Congresso, exercendo mandatos, cinco de senador e três de deputado federal, dois deles eleito como o mais votado da oposição do Estado e um como suplente que assumiu o exercício do cargo várias vezes. Como político militante chego dos 14 anos até hoje, quando comecei como militante da juventude brigadeirista, portanto 76 anos. Assim, toda a minha vida foi dedicada à política, o que me faz o mais longevo político da história da República. E na política foi o Parlamento a minha Casa de formação, onde Continue a ler

O SUDS e o SUS

Está sendo lançado Saúde no Brasil — Provocações e Reflexões, livro da maior importância para o País. Embora reunindo textos escritos ao longo de vários anos, e José Aristodemo Pinotti, seu autor, tenha falecido há dez anos, a reação do Brasil à pandemia enfatiza a necessidade de que todos os responsáveis pela Saúde o leiam e reflitam sobre sua mensagem. Um aspecto essencial é sermos um país com sistema de atendimento universal à saúde — o único com mais de cem milhões de habitantes. Sem ele nem podemos imaginar a Continue a ler

O corona e a muriçoca

Quando Mário Meireles, o grande historiador maranhense, que deixou uma lacuna impreenchível, morreu, uma filha sua comentou: “Meu pai, que resistiu a tantas doenças e tantos obstáculos, foi morto por um mosquito.” Ele tinha falecido de dengue. Agora, as grandes potências, que desenvolveram arsenais de armas de destruição, treinaram milhões de homens para destruir e conquistar, criaram indústrias dedicadas a fazer armas cada vez mais mortíferas, usaram por tantos anos tantos cientistas para desintegrar o átomo e construir armas que ameaçam a destruição da Humanidade, de repente se deparam com Continue a ler

A força do saber

Quando recebi o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Pequim, resolvi falar sobre o tema do saber, defendendo a tese de que todo conhecimento humano era resultado de longo processo de acumulação de saberes que vinha desde o homem da pedra lascada até as descobertas que nos fascinam, como conhecer a estrutura do Coronavírus SARS-CoV-2. O vírus tem de 50 a 200 nanómetros (0,0000002 m) e precisa de microscópio eletrônico capaz de aumento de cem mil a um milhão de vezes para ser estudado. Esse “invisível” organismo, é Continue a ler

Sem e com a toada do Boi

Nessa imensa tragédia da pandemia de Covid-19 — que atinge números difíceis de imaginar, crescendo agora a 50 mil casos por dia e já sendo mais de um milhão e meio, com mais de 60 mil mortes — ficamos em casa, no necessário isolamento para que a calamidade seja menor e perdemos o convívio diário com a família e os amigos. Mas no mês passado o que faltou também foi a alegria de tambores, matracas, a alegria da festa que toma conta da cidade. As festas juninas devem ser uma Continue a ler

Norte-Sul chega a São Paulo

Mais uma vez escrevo sobre a Norte-Sul, a estrada de ferro que eu lancei como Presidente da República e que naquela época foi combatida de toda maneira, chamada de, como foi a Belém-Brasília, estrada das onças — que ligava o nada a coisa nenhuma —, mas com o passar dos anos fez todos os críticos morderem a língua e pedir desculpas, desfazendo as críticas. E a Norte-Sul fez parte dos programas de todos os governos que me sucederam. Ainda consegui fazer o trecho Itaqui-Estreito, a ponte sobre o Rio Tocantins, Continue a ler

O preço da violência

Durante o tempo em que estava no Senado fiz vários discursos e apresentei alguns projetos dizendo que diante da violência cotidiana — o domínio do crime organizado, a impunidade dos homicidas, a faculdade do assassino defender-se solto, o aumento das mortes violentas, tanta falta de respeito à dignidade humana — o povo brasileiro não se revoltava mais e estava se transformando num povo frio, sem capacidade de reagir e de se sensibilizar com os crimes mais hediondos. Isto começou a consolidar-se depois que a Constituição de 88 deu muito melhor Continue a ler

Quarentena, solidão e medo

Nunca pensei em minha vida que passaria meses em prisão domiciliar, sem culpa nenhuma, mas por absoluta necessidade de autodefesa. Só que esta circunstância também é inédita no mundo, pois jamais a Humanidade esteve sob a ameaça de um vírus de ação tão “eficiente”. Ele veio montado na globalização dos meios de transporte, capazes de cobrir o mundo em vinte e quatro horas. A quarentena, na acepção de reclusão e isolamento para evitar contágio, é atualmente a única maneira que temos para evitar a Covid-19. O esforço mundial para descobrir Continue a ler

Meu Destino é Sofrer

A cena trágica do assassinato cruel de George Floyd em Minneapolis, nos Estados unidos, mais uma vez põe como fratura exposta a situação racial americana, viva em seus requintes de brutalidade e sordidez. Em nenhum lugar do mundo esse problema de discriminação permanece com as características de tanta violência quanto ali. As raízes remontam à escravidão — como aqui —, que precisou de uma Guerra Civil para ser legalmente banida e teve como um de seus marcos o assassinato do grande presidente Lincoln, que teve a coragem de enfrentar o Continue a ler

O perigo é maior

A humanidade foi surpreendida por uma ameaça que, embora profetizada por esporádicas vozes, nunca foi levada a sério. Ao longo de nossa história atravessamos muitas doenças que dizimaram populações inteiras, mas todas elas foram superadas. A última grande e fundada ameaça foi a descoberta da fissão atômica. Ele deu ao homem o domínio de liberar forças gigantescas, capazes de destruir imensas regiões da Terra. A primeira noção que tivemos da brutalidade desse poder veio quando, estarrecido, o mundo viu as tragédias de Hiroshima e Nagasaki. E não existe nenhuma garantia Continue a ler

A Saga do Ministério da Cultura

Durante o meu governo, na elaboração do Plano Verão, trouxeram-me o esboço dos cortes que pensavam que devíamos fazer: a primeira coisa que ali estava era a extinção do Ministério da Cultura, por mim criado no dia em que assumi a Presidência da República, 15 de março de 1985. Quando li, minha primeira reação foi uma pergunta indignada: “Os senhores ou querem me ofender ou não conhecem a minha carreira parlamentar. Pois saibam que minha causa parlamentar foi a cultura, fiz dezenas de discursos e apresentei vários projetos de lei Continue a ler

Uma escolha sem Sofia

Estamos diante de uma ameaça sempre temida ao futuro da humanidade: as doenças desconhecidas. Ao longo da história dos seres vivos que habitaram o nosso planeta, milhões de espécies já desapareceram. Para citar o episódio mais fascinante, citemos os dinossauros, que em teoria foi provocada por um meteoro gigante que caiu no Golfo do México, transformando a atmosfera, devastando todo o planeta e levando de roldão quase toda a vida, extinguindo muitas espécies, inclusive as mais bem-sucedidas entre elas, as dos gigantes sauros. Mas nada nos diz que não tenha Continue a ler

Uma cantora do Maranhão Novo

Em casa, na solidão em que me encontro do Covid-19, chega uma notícia que me traz nostalgia. Cem anos do nascimento de Elizeth Cardoso, a grande cantora, a Divina, dos meus tempos de moço. A conheci no Rio de Janeiro, deputado federal, em 1955. Ela cantava numa casa de show, aonde fui levado pelo nosso sempre saudoso e inesquecível Henrique de La Rocque, de quem ela era amiga. Quando terminou o espetáculo La Rocque levou-a para tomarmos um drink. O Rio de Janeiro, como disse Hemingway de Paris, era uma Continue a ler

A Briga das Canetas

O poder e a caneta têm uma relação íntima, às vezes libertina. Mas ultimamente ela tem sido explícita. A primeira vez que ouvi uma definição precisa sobre essa relação foi, nos longínquos anos de 1968, de Plácido Castelo, ele governador do Ceará, eu do Maranhão. Disse-me, mostrando uma caneta: “Sarney, nós, governadores, com esta bichinha poderosa, podemos fazer a felicidade e a infelicidade, nomear, demitir e ameaçar. Mas ela tem um defeito. Quanto acaba a tinta, não serve para mais nada.” A tinta acabava com a eleição do sucessor. A Continue a ler

90: saudades e esperanças

Meus olhos se abriram para o mundo às 7,30 horas de uma cinza manhã de abril, de 1930, depois de noite de um parto sofrido — minha mãe primípara, quase uma menina de 18 anos —, numa casa de chão batido, de 55 metros quadrados, na ainda pequena, quase uma vila, Pinheiro, onde tínhamos chegado há trinta dias, terra cercada dos mais belos campos do mundo, de capins verdes e flores amarelas formando um tapete no meio das águas do Pericumã, saídas do seu leito pelo mundão das chuvas do Continue a ler

Sarney faz noventa anos

Em abril de 2020, o Presidente José Sarney chega aos noventa anos de idade. Destes ele passou 66 anos como político, 60 deles com mandato eletivo. Atingiu assim a mais longeva trajetória política da História do Brasil: mais tempo do que D. Pedro II, mais tempo do que qualquer político do Império, inclusive do que os senadores vitalícios, mais tempo que qualquer político da República. Ao mesmo tempo, teve uma extraordinária carreira como escritor — contista, poeta, romancista, ensaísta, cronista e orador —, tendo publicado 122 títulos, com 172 edições. Continue a ler

Maurice Druon: sobre “Saraminda”

  O Universo das Paixões Absolutas Saraminda é, eu creio, o melhor romance de José Sarney. O leitor não se desprende de sua  leitura repleta dessa mistura tão particular de verdade naturalista e de fantasia trágica que caracteriza seu talento. O “Contestado” e “la couleur” instalam-se em nossa imaginação. Sarney destaca-se na pintura da floresta equatorial, da Caiena de outrora, das técnicas e da vida terrível dos garimpeiros. E a gente sente a proximidade do Maranhão. E, além disso, estamos no universo das paixões absolutas, com essa Saraminda, enfeitiçada e Continue a ler

Josué Montello: sobre “O Dono do Mar”

Um romancista que desponta Eu assisti, em 1952, em São Luís, à estreia de José Sarney, com a publicação de A Canção Inicial. Por esse tempo, era ele um jovem poeta. Cedia ao impulso da idade e da geração a que pertencia, antes que nele despontasse o político, obrigando-o a seguir por outro caminho. Os contos de Norte das Águas, publicados 18 anos depois, sem de todo romperem com a poesia, como forma de expressão genuína, deslocavam o poeta lírico para o plano da realidade regional, numa prosa que, não Continue a ler

Ivan Junqueira: sobre “Os Maribondos de Fogo”

  Poética de Raízes Muito estimado entre nós como ficcionista — Norte das Águas (1969), Brejal dos Guajas e outras Histórias (1985) e Saraminda (2000), além de outros — é todavia como poeta que José Sarney estreia na literatura brasileira, mais precisamente em 1952, quando publicou A Canção Inicial. Tem assim o poeta José Sarney meio século de existência, o que lhe atesta não apenas uma pertinácia de ofício, mas também uma inequívoca vocação lírica, pois, logo adiante, em 1979, retorna ele ao verso com Os Maribondos de Fogo, que Continue a ler

Marcos Vinicios Vilaça: sobre “A Duquesa Vale uma Missa”

  Leitura leve e instigante Em seu novo romance, A Duquesa Vale uma Missa, José Sarney mostra a variedade de seu espaço ficcional. Depois de O Dono do Mar, sobre o universo poético dos pescadores da ilha de São Luís do Maranhão, e Saraminda, sobre os mistérios da epopeia do ouro na região do Contestado entre o Brasil e a França — atuais Amapá e Guiana Francesa —, Sarney investe num romance urbano, passado entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Seus personagens se apresentam ainda, como nos romances Continue a ler

Adolfo Castañon: sobre “O Dono do Mar”

  O Dono do Mar: uma obra com alma O Dono do Mar foi saudado por personalidades tão diversas como Claude Lévi-Strauss, Maurice Druon e Jorge Amado com inteligência e entusiasmo. Dele diz o autor de Gabriela, cravo e canela e Capitães da areia: “O Dono do Mar propõe ao leitor uma visão inesquecível do mar do Maranhão, em sua realidade e em seus mistérios […]. Ao passar do conto ao romance, José Sarney soube manter a alta qualidade de sua escrita, mas agregando uma maturidade de conceito e de Continue a ler

Rachel de Queiroz: sobre “O Dono do Mar”

  O mar e os donos do mar Quando o homem era Presidente da República, ouvi muito maldizente comentar: “Ora, pra um Presidente é fácil eleger-se acadêmico…” Mas verdade é que José Sarney entrou para a Academia muito antes de sonhar em ser Presidente (ou talvez já sonhasse, que ele é homem de sonhos altos), mas o que lhe abriu as portas da Academia Brasileira foi o seu belíssimo livro de contos Norte das Águas, publicado há mais de uma década. Todos nós já o sabíamos escritor, e muito bom, Continue a ler

Darcy Ribeiro: sobre “O Dono do Mar”

  Uma leitura gozosa Li O Dono do Mar e gostei. Muito. Não imaginava José Sarney um romancista poderoso. E é. Entra no livro nadando de braçadas, dono das águas, dos ares e dos mares do Maranhão. Dá voz e alma aos pescadores das ilhas e das praias de São Luís com sabedoria e volúpia exemplares. Sarney é o intérprete de uma das matrizes básicas da cultura brasileira, a dos pescadores. Equivalente ao que Zé Lins é para o povo dos engenhos e Jorge Amado, para o gentio dos cacauais. Continue a ler

Antônio Olinto: sobre “O Dono do Mar”

  Personagens vivos e fortes Pouco sabemos dos mistérios da criação literária. Como de qualquer outra criação. Explicações técnicas, temo-as aos montes. Análises sintáticas, melódicas, biológicas, sociais, ou puramente vocabulares, ou sociológicas, psicanalíticas, ou simplesmente ligadas ao adjetivo do momento. Algumas em separado e todas em conjunto, aclaram meandros, facilitam visões particulares, embora possam deixar um lado lunar inatingível. Esses estudos de decomposição revelam às vezes desconhecimento do fenômeno da composição. A autópsia mostra, mas não surpreende a vida em ação. Fica faltando, ao analista puro, uma intimidade maior com Continue a ler

Gerard de Cortanze: sobre “O Dono do Mar”

  Homenagem às gentes do mar O mar do Maranhão, no Norte do Brasil, é um cenário cheio de mistérios. Ao longo de um litoral muito recortado, muitas águas embaralham suas correntes. Ao longo de suas baías ricas de uma fauna e uma flora luxuriantes, bancos de areia, canais, manguezais, atóis, barreiras de coral, baixios constituem um universo geográfico onde nascem e se propagam as lendas mais singulares. Há muitas gerações os pescadores desta zona setentrional do Brasil, nas margens de suas bianas e de seus igarités, reencontram um oceano Continue a ler

Léo Gilson Ribeiro: sobre “Norte das Águas”

  O Maranhão do senador Sarney, o escritor Em São Luís do Maranhão, no palácio dos Leões, quando termina o expediente diário, é comum ressoarem pelas janelas abertas para o azulão rio Anil vozes de cantadores populares ao som de violas. Modinhas que falam de filhas de fazendeiros seduzidas, de coronéis do interior em luta eleitoral e de cangaceiros valentes partindo do palácio do governador estadual. Para o povo do Maranhão, essas melodias fazem parte do encerramento dos trabalhos, quase que se casam com o lento crepúsculo da cidade, com Continue a ler

Lincoln Paine: sobre “O Dono do Mar”

  Literatura do Mar e História Marítima Na obra de José Sarney, O Dono do Mar, o pescador Antão Cristório tem como companheiro Aquimundo, encarnação de um piloto chamado Aires Fernandes que morreu afogado, e “em quem o tempo não passou”. Aquimundo conta ao perplexo Cristório, no seu primeiro encontro: Andei por muitas terras, de Sofala, Querimba, Ibo, Pemba, Mombaça, Melinde, Pate, Ormuz, Diu, Goa, Coxim, Malaca, Ceilão, Meliapor, Macau, Timor, e cheguei a Nagasáqui com Francisco Xavier, o padre que hoje é santo, mas que embarcou comigo na nau Continue a ler

José Louzeiro: sobre “Saraminda”

  A importância de Saraminda O mais recente romance de José Sarney, que vem sensibilizando leitores e críticos, é uma obra inovadora. São quatro as trilhas e tramas que dinamizam essa narrativa: — O erótico, de desenho quase litúrgico, elevado ao estágio do sutil; — A instauração de um ciclo especial do inferno chamado garimpo; — Os duendes da mata-virgem que se tornaram anjos protetores  inclusive do romancista; — O passado que condena mas enternece. Saraminda não é apenas um contraponto de Iracema e Capitu, como lembra Carlos Heitor Cony. Continue a ler

Tereza Cruvinel: sobre “Saraminda”

  Era uma vez uma mulher de seios de ouro   No novo livro de Sarney, há pitadas de realismo fantástico colhidas no imaginário dos garimpos e na tradição oral. A literatura ficará devendo à política a existência de Saraminda, o novo romance de José Sarney. Não fosse haver-se candidatado a uma cadeira do Senado pelo Estado do Amapá em 1991, não teria o ex-Presidente tropeçado nas sobrevivências da luta entre franceses e brasileiros pela posse das terras contestadas, ou nas marcas da febre de ouro que rasgou o ventre Continue a ler

Radu Vladut: sobre “Saraminda”

  Saraminda, a fascinação do inefável Além de suas virtudes literárias certas, Saraminda é um romance de grande atmosfera, na linha trilhada há mais de meio século por Malcolm Lowry com Under the Volcano, cuja ação tem lugar nas mesmas coordenadas geográficas (aproximadamente). Difícil de construir e com um alvo relativamente restrito, tal romance solicita ao máximo o leitor, impondo geralmente uma segunda e até uma terceira leitura para atingir a decifração do ambiente, principalmente, e da linha épica, secundariamente. As personagens, porém, precisam antes de uma abordagem permitida mais Continue a ler