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A Academia Brasileira de Letras faz 125 anos

A Academia Brasileira de Letras faz 125 anos

Quero agradecer ao Presidente Merval Pereira — que com tanta eficiência vemos dirigir esta Casa — o convite que me fez para ser o orador desta sessão tão significativa para todos nós e para o Brasil, porque mostra a perenidade desta Instituição que há 125 anos é a guardiã da língua e dos nossos valores espirituais, construída pelo gigantesco patrimônio cultural das obras dos que por aqui passaram e dos que aqui estão.

Quando tomei posse nesta Casa em 1980, sucedendo ao grande escritor e político José Américo de Almeida, lembrei do nosso patrono, Machado de Assis, para repetir sua frase célebre: “aqui está a glória que fica, eleva, honra e consola”.

Minha mãe, quando morreu, aos 92 anos, deixou uma carta que começava assim: “Agradeço a Deus a graça da vida que me deu […] alegria de ver o meu José membro da Academia Brasileiras de Letras.” Ela colocou em primeiro lugar esta honraria, antes que todas as outras.

 Repito o que contei no meu discurso de posse e tantas vezes tenho repetido: quando fui eleito para a Academia Maranhense de Letras, escrevi ao meu avô comunicando orgulhoso essa vitória aos 23 anos. Ele, lavrador, retirante das secas, ficou feliz e alegre e começou a soltar foguetes defronte de sua casa. Dona Tudinha, sua vizinha, perguntou:

— O que aconteceu, seu Assuéro?

— Meu neto José entrou para a Academia.

— E o que é Academia? — ela perguntou.

— Eu não sei. Eu sei que é coisa grande.

coisa grande é a eternização dos sentimentos da alma de que nos fala Bergson. O patrimônio cultural da nação. Nenhum país pode ser grande potência se não for grande potência cultural.

Não basta ter poder militar, político, econômico, se não for potência cultural.

Faço estes registros pessoais para dizer o quanto eu tenho esta Casa como templo da cultura nacional, como tenho admiração pelos colegas pelo que eles representam para o país como guardiões desses valores espirituais. A soma de todos nós é menor que a Academia. Vivemos dos que por aqui passaram, e os que chegarem viverão dos que aqui estão.

Os 125 anos da fundação da Academia Brasileira de Letras assumem uma expressão maior quando a cultura brasileira enfrenta grandes desafios, entre eles o das contingências históricas, como a terrível pandemia que tanto sofrimento trouxe à nossa sociedade. Mas nossa Casa soube superar os percalços que lhe couberam, entre eles o da perda de tantos membros concentrada num curto espaço de tempo, e o fez com significativa renovação.

Durante esses 125 anos, para celebrar a data, falaram grandes conhecedores de nossa história e grandes nomes de nossas letras. Tudo já foi dito e nos deparamos com a impossibilidade de ser originais.

Os fundadores

Quando o século 19 se fechava, um grupo teve a iniciativa de criar um clube de escritores, foi buscar o emblema e o maior deles, Joaquim Maria Machado de Assis. Foi ele, já idoso nos seus 58 anos — eram outros os tempos e a longevidade, e ele vivera uma vida especialmente difícil —, quem deu solidez e autoridade à iniciativa e plantou no imaginário brasileiro de maneira indelével a Academia Brasileira de Letras.

Outro nome foi fundamental: o de Joaquim Nabuco. Dez anos mais moço, ele abandonara o brilho político para tornar-se escritor e lançava a obra em que, como nenhuma outra, se juntam a memória e a análise política, para resgatar a figura de seu pai: Um estadista do Império, obra-prima em estilo e conteúdo.

No dia 20 de julho de 1897 foram eles os oradores: o Presidente e o Secretário-Geral. Esses discursos — sobretudo as brevíssimas palavras de Machado — ficaram eternos e se tornaram nossos breviários.

As palavras de Machado de Assis

Machado nos lembra a “alma nova”, a questão da inovação, o desejo de mudança; e a diz “naturalmente ambiciosa”. Nenhum exemplo maior que o dele, cuja determinação o levou, autodidata, a aprender, aprender e aprender, e ao domínio da palavra até atingir o ponto máximo de nossa literatura.

Diz necessário “conservar a unidade literária” “no meio da federação política”. Ele era um discreto engajado político, chegara mesmo a pensar em ser candidato por um distrito de Minas Gerais. A federação, causa de Nabuco e Rui, era ainda muito jovem, mas ele acompanhara sua construção. Para Machado a federação significava também que a língua nacional era a de seus modelos. E quais eram seus modelos?: o maranhense Gonçalves Dias e o cearense José de Alencar.

Nosso primeiro Presidente coloca como referência a Academia Francesa, com a capacidade de sobreviver “aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis”. Recomenda, portanto, um equilíbrio entre o passado e o futuro, num universo em que “a tradição é o primeiro voto”, representado na escolha do batismo das cadeiras com “nomes preclaros e saudosos”.

Dá a todos nós uma missão: sacralizar esse voto, passando aos sucessores “o pensamento e a vontade iniciais” para que “vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira”. Esta tarefa tem sido cumprida através de muitas gerações. Sou testemunha.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro pude conviver com nomes que já não estavam entre nós quando nesta Casa fui recebido: permitam-me lembrar Manuel Bandeira, Gilberto Amado, Otávio Mangabeira, Guimarães Rosa, José Américo de Almeida, a quem sucedi, e especialmente Odylo Costa, filho, amigo inesquecível.

O discurso de Nabuco

Convivi ainda com Monsenhor Nabuco, José e Maurício, filhos de Joaquim Nabuco. Orador da Sessão Inaugural, Nabuco fez a necessária análise da formação da Casa e de seus objetivos. Era preciso sobreviver a “desânimo, dispersão e indiferentismo”. Todos nós damos fé de que sobrevivemos. Somos o que Nabuco chamou naquele dia de “verdadeira maravilha de cruzamento literário”.

Ele nos advertia de que seríamos quarenta, mas não “os Quarenta”. Temos que ter consciência de nossa fragilidade, de nossa mortalidade. Colocava, com aquela extraordinária habilidade com as palavras, a questão da necessária “proporção de ausentes”, uns não lembrados, outros que não quiseram participar.

Levantou, como Machado, a questão “dos antigos e modernos”, do equilíbrio entre os que têm passado e os que ainda olham para o futuro. Observa com aguda precisão que a vida intelectual não é um movimento: “quieta non movere”. Estamos tão envolvidos no aceleradíssimo fluxo das contingências humanas que temos dificuldade de ver “o espírito, a absorção, a dilatação infinita do pensamento em um só objeto”. Mas essa é a arte, e a nossa arte, pequenas manchas negras imóveis em folhas de papel.

Sim, somos efêmeros, lembra Nabuco: “a morte encarrega-se de abrir nossa porta com intervalos mais curtos do que o gênio ou o talento toma para produzir qualquer obra de valor.” Para os substitutos, a “escolha poderá parecer um plebiscito literário”. Parecer, ressalta ele; e acrescento eu que, mais que um julgamento, é uma escolha, e esta se faz pelo mérito, decerto, mas somos aqui uma Casa de convívios, não a “dos Incompatíveis”. “Sentiremos o prazer de concordarmos em discordar”, pois a “melhor garantia da liberdade e independência cultural é estarem unidos no mesmo espírito de tolerância os que veem as coisas d’arte e poesia de pontos de vista opostos”. E prega como elemento de encontro “a admiração comum” e o “apreço mútuo”.

Nabuco concluía seu discurso sustentando que as literaturas portuguesa e brasileira são autônomas e independentes na unidade da língua comum, cuja defesa nos foi entregue. Ela é um milagre, quase um dialeto espanhol que saiu pelos mares, penetrou nos continentes, deu a volta ao mundo, subiu pelo interior do Brasil e foi reencontrar o espanhol nos contrafortes dos Andes. A defesa da língua nos levou aos acordos ortográficos, inclusive ao que hoje vigora na comunidade dos países de língua portuguesa. Nossa Academia teve uma participação muito grande nos estudos que a ele levaram, e os que a representaram honraram nossa Casa. A todos homenageio no nome de Nélida Piñon, nossa grande escritora, expressão da Academia, a única sobrevivente do grupo e nossa referência. A querida romancista, que presidiu a Casa em seu centenário e a quem devo inúmeras gentilezas, tem lugar reservado entre os nomes maiores de nossa confraria e dos que nos presidiram.

Nos tempos da nossa fundação Joaquim Nabuco escrevia Um estadista do Império e logo depois escreveria Minha formação; e Machado escrevia Dom Casmurro. Se as almas dos povos podem ser expressas, esses três livros seriam, como são, gigantescos monumentos de nossa grandeza. Mas não posso deixar de citar o testemunho vivido e contado também naqueles dias por Euclides da Cunha e Os Sertões, que, se nos marcava com o horror do crime bárbaro contra Canudos, vestia-se do aviso perene dos desvios que o Estado pode tomar.

A história da Academia Brasileira

A ideia de uma academia era antiga. Já no século 18 houve academias e sociedades literárias, com nomes adjetivos: a dos Esquecidos, a dos Renascidos, a dos Felizes, a dos Seletos. José Bonifácio fora Secretário-Perpétuo da Real Academia de Ciências de Lisboa, a que me honra também pertencer. Uma comissão do Instituto Histórico e Geográfico estudara, em 1847, a criação do que chamaria Academia Brasileira. A ideia voltaria em 1878 e 1883 com a Associação dos Homens de Letras do Brasil, em 1890 com Aristides Lobo e Medeiros e Albuquerque e em 1895 com o grupo da Revista Brasileira.

Ali, na rua do Ouvidor, se reuniam toda tarde José Veríssimo, diretor da Revista, Paulo Tavares, seu secretário, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Lúcio de Mendonça, Graça Aranha, Paula Ney, Domício da Gama, Alberto de Oliveira, Rodrigo Otávio, Silva Ramos e Filinto de Almeida. Os que se empenharam em tornar a ideia realidade foram Lúcio de Mendonça e Medeiros e Albuquerque. Afinal foram feitas reuniões preparatórias. Machado orientava discretamente os caminhos.

Ele e Nabuco eram os núcleos em torno dos quais se podia construir o projeto. Os amigos que se reuniam na Revista Brasileira vinham do combate pelo abolicionismo. Machado, que tantas vezes foi acusado de indiferente às suas origens, era, sem dúvida, um exemplo em meio aos intelectuais que haviam participado da campanha vitoriosa. Nabuco, este, fora a sua alma. Machado, por outro lado, era o escritor por definição, total e visceralmente escritor.

A vida de Machado, passando do obscuro ajudante de tipógrafo ao sóbrio diretor de secretaria, mais do que tudo, representava bem a transição que o papel do escritor sofrera, da obscuridade dos bastidores às luzes do proscênio. Há muito ele encontrava nas associações culturais um abrigo. Já em 1864 ele fechava uma crônica com essa declaração: “Anuncia-se um grande sarau literário, musical e dançante no Club. É festinha de minha paixão.”

Creio que todos conhecem as lembranças de Machado a respeito das premissas do nascimento desta Casa, que foram as reuniões da Revista Brasileira, iniciadas em jantar de 12 de dezembro de 1896:

Chego ao Hotel do Globo. Subo ao segundo andar, onde acho já alguns homens. São convivas do primeiro jantar mensal da Revista Brasileira. O principal de todos, José Veríssimo, chefe da Revista e do Ginásio Nacional, recebe-me, como a todos, com aquela afabilidade natural que os seus amigos nunca viram desmentida a um só minuto. Os demais convivas chegam, um a um, a literatura, a política, a medicina, a jurisprudência, a armada, a administração… Sabe-se já que alguns não podem vir, mas virão depois, nos outros meses.

Na Academia Francesa os patronos são os primeiros ocupantes; por sugestão de Nabuco se resolveu que os fundadores fariam a escolha dos patronos de suas cadeiras. Essa tarefa marcou o caráter de reunião de amigos que tem a Academia. O método fez com que não estivessem entre os patronos José Bonifácio, Alexandre de Gusmão, Antônio José, Santa Rita Durão. Nabuco escolheu Maciel Monteiro, não seu modelo literário, mas a lembrança do ídolo mundano, que compartilhara com Castro Alves. Machado fez a escolha literária que a gratidão e a amizade com o filho — Mário de Alencar — impunham: José de Alencar. Mas sugeriu, com a autoridade inafastável, que Filinto de Almeida escolhesse Artur de Oliveira, numa de suas demonstrações de que, em sua escala de valores, a amizade vinha em primeiro lugar.

Esse traço nos une, deve nos unir, tem-nos unido no que Nabuco chamou de “concordarmos em discordar”. Nabuco mesmo cultivou a conciliação, aceitando trabalhar com Rio Branco na defesa da República, sem renunciar a seu monarquismo, mas, sobretudo, foi grande amigo de seus muitos amigos, mundo afora.

A amizade entre Machado e Nabuco, tão díspares na origem e tão próximos na compreensão dos sentimentos, foi sempre marcada pela admiração de Machado por Nabuco, o jovem e já consagrado escritor prevendo sucesso como poeta ao menino, o viúvo desolado pensando, no leito de morte, no velho embaixador; e do outro lado pela verdadeira devoção de Nabuco por Machado. Graça Aranha, fundador da cadeira que ocupo e meu conterrâneo, que entrara para a Academia ainda muito jovem e sem livro publicado, mas com dois apoios fortes, o de Machado e o de Nabuco, escreveria bem mais tarde uma introdução muito perspicaz à correspondência entre seus dois patronos:

A essência intelectual de Nabuco provém das suas origens e é por isso que nele se acentua, mais do que o artista, o pensador político. É uma tradição espiritual que ele conserva e eleva a um grau superior, ainda que a essa vocação política se alie a sensibilidade artística. […] Herdou do pai o amor da perfeição, o gosto do conceito, a fórmula expressiva e gráfica, a que ele ajuntou a modernidade do espírito, a curiosidade cosmopolita, o sabor da novidade e o ardor romântico.

Falo da amizade e dos postulados de Nabuco sobre o “concordar em discordar” e pode parecer que Graça Aranha seria, justamente, a pessoa a não invocar: afinal foi ele o protagonista do choque com Coelho Neto ao fim de sua conferência sobre o espírito moderno.

A Casa está plena. A plateia, ávida. O velho Graça Aranha sobe a esta tribuna e grita:

— Morra a Academia!

Os jovens aplaudem. O auditório ferve. Entre os que o carregam em triunfo está Alceu Amoroso Lima.

Coelho Neto sucede-lhe. Vem replicar. Faz o elogio da Grécia. No público, o grito de contestação:

— Morra a Grécia!

E Coelho Neto responde:

— Mas eu serei o último heleno.

Afonso Celso procura Graça Aranha para que retorne à Academia. Sua resposta mostra justamente que a tese de Nabuco permanecia:

De todos os nossos colegas me afastei sem o menor ressentimento pessoal e a todos sou muito grato pelas generosas manifestações em que exprimiram o pesar da nossa separação.

Tive a oportunidade de dizer, quando tomei posse, que os gestos de Graça são sempre políticos e o episódio da Academia fora um gesto de política literária.

Uma grande amizade me uniu a Austregésilo de Athayde, por tantos anos nosso Presidente. A ele deve a Humanidade o momento glorioso de ser um dos principais redatores da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Ele nos deu, não uma Casa nova, mas a possibilidade de uma estrutura física, retaguarda de nossa sobrevivência.

A saudade dos que partiram

Passamos por um momento de renovação de nossos quadros. Isso significa que muitos de nós nos deixaram nesse longo período de pandemia que tantas marcas deixa em nosso País. Lembro-os com tristeza. Membro dessa casa há 42 anos, cheguei aqui antes de todos eles, mas de muitos já era amigo e admirador.

O Prêmio Machado de Assis

Ao longo de sua história a Academia sempre participou da atualidade literária com premiações, a principal delas pelo conjunto da obra, vinculando este prêmio ao de nosso patrono geral, Machado de Assis. Assinalarmos com seu nome essa escolha deve sempre lembrar como, ao longo de sua carreira, ajudou a jovens escritores, o primeiro deles Antônio de Castro Alves, a ele encaminhado por José de Alencar, que o tratava como primeiro crítico brasileiro e pedia-lhe que fosse “o Virgílio de nosso Dante” — e Machado tinha apenas 29 anos! Hoje, mais de cento e cinquenta anos depois, invocamos o primeiro escritor brasileiro para homenagear um escritor pelo conjunto de sua obra.

Este ano o escolhido é o antropólogo Roberto DaMatta. Professor da Universidade Católica, doutor DaMatta tem uma extensa obra como cientista social e polemista, para a qual contribui sua coluna na imprensa e sua grande ligação com a mídia. Tendo começado com o estudo da etnia Xavante, o professor dedicou muita atenção à cultura popular e a suas manifestações, como o carnaval e o futebol.

Quero assinalar também a entrega da Medalha Machado de Assis ao Grupo Globo, na constante lembrança e saudade de Roberto Marinho, cuja Fundação é uma extraordinária contribuição à educação e à cultura; e da Medalha João Ribeiro à Livraria da Travessa. Essas medalhas são o reconhecimento do importante papel dessas duas organizações em favor da cultura brasileira.

Os nossos santos de altar

Um elemento nos leva da abstração das intenções para a realidade: a imensa obra publicada que é a soma do que fizemos e fazemos todos nós, posta nas bibliotecas e na mão dos leitores. É no livro que nos realizamos, que a Academia se realiza, que a língua — que expressamos e carregamos em sua grandeza — se realiza. Ela é viva, evolui a cada dia no falar das gentes, marcada pelo efêmero, adquire, no livro, uma permanência superior que atravessa os tempos e se torna substância da imortalidade.

Ao fazermos 125 anos, devemos reverenciar também os que fizeram a imortalidade desta Casa. Se dela não fizeram parte Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda — nesta Casa estiveram a maior parte dos grandes escritores brasileiros. Alguns, sem serem eleitos, foram por nós escolhidos: lembro os nomes imortais que receberam o Prêmio Machado de Assis citando Cecília Meireles e Érico Veríssimo.

Nesta Casa alguns estiveram por muitos anos —Alceu Amoroso Lima nela esteve por 48 anos, Pedro Calmon por 49, Barbosa Lima Sobrinho por 63, Magalhães de Azeredo por 66, Clóvis Beviláqua por 47, Austregésilo de Athayde por 42  —, outros brevemente — Guimarães Rosa por 3 dias, Santos Dumont nem tomou posse. Eu mesmo aqui já estou há 42 anos, e há muito sou o decano da Casa.

Aos duzentos e sessenta e dois acadêmicos que fomos e somos desde a fundação, a todos evoco, cultivando a carga infinita das emoções que souberam transmitir em letra de forma. Fomos e somos todos mortais, mas cada um de nós é um pouco dessa obra coletiva que é, ela sim, imortal. A palavra é a expressão de nossa Casa. No livro ou na expressão dramática, como faz Fernanda Montenegro, ou na poesia cantada, como faz Gilberto Gil.

À palavra devemos nossas devoções. Sua luz ilumina a sociedade, marcada pela infinitude como a matéria que forma o universo — a luz da palavra forma o nosso universo, e é com ela que nos erguemos para defender a cultura, para exprimir a cultura, para iluminar o caminho e abrir alas para a cultura.

A Democracia

Infelizmente não é só a cultura brasileira que precisa, neste momento, ser defendida.

Fui o Presidente que conduziu a transição para a democracia. Tenho a responsabilidade pessoal de defendê-la. Ela se consolidou pela prática continuada de eleições livres, sob a vigilância segura e firme do Tribunal Superior Eleitoral.

Garantir que o Judiciário exerça em plenitude suas responsabilidades é absolutamente necessário para que a democracia prevaleça. O Brasil precisa se unir em torno deste objetivo.

Da saudade à alegria

Já disse aqui que como decano da Casa tenho por dever relembrar a História da Academia, mas não posso fugir à nostalgia de, com meus olhos de ontem, ver as cadeiras vazias da Academia que me acolheu e as palavras de chegada que jamais esquecerei. Foi a alegria mais pura da minha vida. Lembrar amigos e mestres. Euclides da Cunha nos advertia: “Cuidado com a saudade.” Ponhamos de lado a saudade.

Vivamos a alegria destes 125 anos, a visão das cadeiras cheias dos meus eminentes confrades, grandes escritores, expressão maior da cultura brasileira em nosso tempo. Somos o futuro de que falava o nosso passado pela boca de Machado e Nabuco.

Vivamos, na passagem fugidia do tempo, aquela glória que Machado dizia ser a “que fica, eleva, honra e consola”.

Minhas Senhoras e meus Senhores:

Peço que se levantem em homenagem a visitantes que fazem parte de nossa grandeza.

Vamos recebê-los de pé, eles estão chegando… abram o caminho para que aqui venham participar dessa sessão, para iluminar com grandes estrelas a Academia que fundaram.

Estão em nossa memória! Se por eles somos imortais, os tornemos por um instante mortais:

— Entre, Machado de Assis!, entre, Capitu!, entre, Bentinho!, tragam o mistério eterno contado no Dom Casmurro!

— Entre, Joaquim Nabuco!,  venha com as páginas extraordinárias de Um Estadista do Império!

— A Casa é vossa! Sim, esta é a vossa Casa, que nós outros ocupamos por breves momentos: entrem, tomem assento! Recebam nossa reverência à vossa grandeza!

Ao contrário de Graça Aranha, quero proclamar:

— Viva a Academia!

JS

José Sarney foi Presidente do Brasil, Presidente do Senado Federal, Governador do Maranhão, Senador pelo Maranhão e pelo Amapá e Deputado Federal. É o político mais longevo da História do Brasil, com mais de 60 anos de mandatos. É autor de 122 livros com 172 edições, decano da Academia Brasileira de Letras e membro de várias outras academias.

3 thoughts on “A Academia Brasileira de Letras faz 125 anos

  1. Raquel Naveira

    Comemoremos os 125 anos da ABL, uma instituição que honra e marca a cultura brasileira.
    Poderosa no imaginário de nossa sociedade.
    O Presidente Sarney sempre trazendo casos interessantes e saborosos, sempre fiel e elegante em seus ideais, sempre nos levando à emoção mais verdadeira.
    Saudações literárias,
    Raquel Naveira

  2. Wergniaud Antonio Breckenfeld Alexandre

    Autor de 122 livros??? Desconhecia tamanha façanha, merecendo maior destaque na literatura brasileira.

  3. Wilson Roberto da Silva

    Imortal Acadêmico e Eterno Presidente José Sarney! Cumprimentos pelo memorável discurso e a narrativa histórica desses 125 anos da Academia Brasileira de Letras. Viva a Academia! Viva todos os seus Membros!

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