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António Alçada Baptista

António Alçada Baptista •

Escritor e editor português. Por ocasião do lançamento da edição portuguesa de "Norte das Águas", Edições Livros do Brasil, 1980.

 

 

Sobre Norte das Águas

Recriação do Espaço e do Tempo Regionais

Escrever sobre um livro de José Sarney impõe que se estabeleça uma separação clara entre aquele que foi deputado federal, governador do Maranhão, senador e presidente da Arena e que, atualmente, lidera o Partido Democrático e Social, e o escritor José Sarney, membro da Academia Brasileira de Letras. Porque a tentação existe para o melhor e para o pior: para que os seus correligionários digam que ele é um grande escritor, para que os seus adversários digam que é um mau escritor e para que os indiferentes façam comparações entre o escritor e o político.

Ora, é necessário vincar, sem nenhuma ambiguidade, que estamos perante um grande escritor que o seria de qualquer modo, independentemente de uma carreira política boa ou má, e, nessa matéria, talvez haja que lamentar o prejuízo que a literatura de expressão portuguesa tem vindo a sofrer pelo fato de José Sarney não se dedicar exclusivamente a ela.

Já que estou em maré de afastar tentações convém afastar uma outra: a de ligar demasiadamente a escrita da Sarney à de Guimarães Rosa, porque, nessas coisas de literatura, a pressa é má conselheira. A verdade é que, desde que o gênio de Guimarães Rosa trouxe uma nova dimensão à literatura dita regionalnão exatamente e tão só uma dimensão universal, mas a própria reformulação do que pode haver de essencial nos ritmos imediatos e vitalistas da espécie humana , desde que isso aconteceu, dizia eu, é difícil separar qualquer texto, que escape à pobreza da literatura regionalista tradicional, da lição e da mensagem rosiana, quase sempre em termos de sobreposição ou seguidismo fácil. Nada de mais injusto em relação à escrita de Sarney que, em certa medida, faz exatamente o contrário de Rosa. Neste, o tecido do tempo e espaço regionais funciona como pretexto para a recriação da linguagem que, como bem refere Lucy Teixeira, é, em Guimarães Rosa, o grande personagem. Em Sarney, a linguagem funciona como instrumento da recriação do tempo e do espaço regionais que são, em Sarney, os verdadeiros personagens da sua obra.

Creio que os escritores que se preocupam com o levantamento do tecido “irracional” de uma comunidade estão prestando aos nossos vindouros um serviço inestimável. Quando o bulldozer da racionalidade econômica ou o da revolucionária, ou os dois conjuntamente, retalharem e destruírem irremediavelmente o tecido que foi o espaço e o tempo do povo, como poderemos reconhecer, não já com ignorância mas com sabedoriacom a douta ignorânciao que somos, a fim de podermos reaprender e retomar os ritmos primordiais da vida?

Exatamente, não sei, mas julgo que talvez a literatura seja então o único documento através do qual, não por puro deleite mas por necessidade de sobrevivência, nos possamos aproximar da decifração desse enigma.

Seguindo a fraqueza do exemplo direi que é possível admitir que um dia a expressão visível da sociedade portuguesa, como comunidade, possa desaparecer. Como comunidade que vive e respira num determinado tecido onde é possível reconhecer uma específica e intransmissível identidade que se exprime por liturgias próprias, que nos comunicam as alegrias, as dores e o fantástico poder do sentimento. Nesse contexto, a língua contém a forma da presença de uma história que avançou por um destino temporal, que não é possível imaginar senão através dos símbolos e dos sentimentos que nos revelam a existência subterrânea de textos sagrados e poéticos e de tudo o mais que representa a “ecologia” profunda da alma no meio ambiente que, através das circunstâncias da história, pacientemente descobriu adequado. Se um dia for definitivamente quebrada essa espécie de movimento que segura uma hereditariedade e a projeta numa espiritualidadeque é a expressão do nosso encontro coletivopenso que por meio da escrita de Camilo Castelo Branco será possível refazer os traços desse dinossauro, revelador da nossa ancestralidade, e reencontrarmos nele as nossas origens e as matrizes primeiras na nossa vivência/convivência coletiva.

Para mim, a expressão literária de José Sarney se coloca exatamente aí: o escritor que guarda da cultura cultivada quase só a aprendizagem da escrita e o uso da caneta e que é capaz de encarnar o médium revelador desse tecido do tempo e do espaço que os nossos humores, quase puramente vitais, construíram, para fixá-los num texto que funciona quase como o gravador do etnólogo que colhe da boca dos moribundos os últimos cantares que acompanharem a solenidade dos dias fastos e nefastos comunitariamente vividos.

Esse milagre de reencarnação consegue Sarney de uma forma exemplar, colocando, entre a sua escrita e a do “escritor regionalista”, a vala abissal que separa a festa do folclore, isto é, a vida do espetáculo ou, mais propriamente, o sofredor do espectador, ou ainda, o possesso do ator. 

Essa metamorfose, esse “pegar de santo”, que já seria de admirar num escritor comum, atinge uma transfiguração radical em relação ao Sarney político, porque o político é, por natureza, insensível a essa realidade profunda e, por essa razão, se tornou o seu inimigo principal: o político quer a “tabula rasa”, quer a página em branco onde possa escrever o sistema simplificador e redutor que construiu dentro da sua cabeça, inacessível à subtileza das complexidades, da particularidade e do instante.

Resta-me acrescentar que, não obstante esse milagre de transfiguração, no último período do Brejal dos Guajas, o político aparece no livro com a discrição com que Hitchcock fazia questão de comparecer, em carne e osso, em todos os seus filmes: “Javali e Guiné continuaram suas brigas em outras oportunidades, comprando o babaçu e o arroz pelo preço combinado, e o povo do Brejal feliz: oitenta por cento de tracoma, sessenta de boba, cem por cento de verminose, oitenta e sete de analfabetos, mas feliz, ouvindo a valsa do Brejal, Brejal dos Guajajaras.”

Em nome de uma comunidade em agonia que os políticos têm ajudado a destruir com a crueldade dos seus esquemas simplificados e redutores, atrevo-me a desejar que o escritor José Sarney faça igualmente na vida política as suas aparições, se possível mais frequente e mais demorada que as de Hitchcock nos seus filmes.

Talvez isso possa contribuir para que haja outra bem diferente relação entre uma política e uma comunidade. Porque é possível que o mundo, mais do que ser transformado, tenha necessidade de quem, como o escritor José Sarney, tão bem o compreenda e o respeite.

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