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João Paulo II e Gorbachev

João Paulo II e Gorbachev

O mundo perdeu um grande estadista.

Contou-me Dom Mauro Morelli que, ao felicitar o Santo João Paulo II pelo trabalho que tinha feito em favor da queda do Muro de Berlim, evitando que o mundo se confrontasse com as duas ideologias, que certamente terminariam na guerra nuclear, o Papa, humildemente, respondeu: “Não. O responsável foi o Mikhail Gorbachev.” Fez uma pausa: “Mas eu dei um empurrãozinho.”

A Humanidade deve a Mikhail Gorbachev o fim do Estado concentracionário comunista, feito que só se compara ao de Winston Churchill ao derrotar — com a ajuda de Roosevelt — o Estado nazista. Os dois Estados eram iguais no desprezo do indivíduo, no controle pelo medo, na destruição da vida: foram derrotados por dois homens muito diferentes — um, o intelectual aristocrata, o outro, o apparatchik camponês —, mas iguais na compreensão de que a política precisa ter a medida do humano.

Fui o único Presidente brasileiro a visitar a União Soviética. Gorbachev, na companhia da primeira-dama Raíssa, nos recebeu com muita delicadeza e, logo que nos instalamos, convidou-nos, a Marly e a mim, para acompanhá-los num passeio pelos jardins do Kremlin. Fomos logo cercados por participantes de um congresso que acontecia no grande complexo do Palácio, e ele os atendeu com muita calma, respondendo a uma enxurrada de questões. Disse-lhe que levaria comigo essa imagem de um comício no Kremlin.

Raíssa, que era especialista em ícones, nos levou a um museu a eles dedicados numa velha igreja fechada pelo Partido Comunista. Ao entrarmos, Gorbachev retirou o seu chapéu. Marly observou: “Ele ainda tem fé. Mesmo que seja museu, é uma igreja. E ele tem respeito por ela.”

Passamos por um velho canhão, relíquia de alguma das guerras, que não foram poucas na Rússia. Gorbatchev nos disse: “Presidente, veja este canhão. O Sr. Reagan tem a mania de ser professor. De vez em quando, ele me liga e quer dar-me aulas. Outro dia, ele me perguntou por uma arma de alto poder destrutivo, que eu já estaria desenvolvendo. Eis a arma: este velho canhão, que estou tendo a confiança de mostrar a Vossa Excelência.”

A glasnost, a perestroika e a demokratizatsiya — a democratização — já estavam em marcha. O sentimento era de que os tempos que haviam assombrado aquela imensidão de mundo estavam se desanuviando. Havia esperança no ar e nos olhares. Ele tivera a audácia de convocar uma câmara eleita, o Congresso dos Deputados do Povo, e de dissolver o Soviet Supremo, para que um novo Poder Executivo fosse escolhido pelos deputados. Estes o fizeram o primeiro Presidente eleito da União Soviética.

Eu liderei uma transição para a democracia que foi bem-sucedida. Mas paguei um preço alto. A transição que Gorbachev fazia tinha, entretanto, desafios infinitamente maiores. Para começar, ele tinha que conter a segunda força militar do mundo.

A Humanidade lhe deve a iniciativa de propor o fim das armas nucleares para o ano 2000, recusada por Reagan, mas ainda importantíssima — recebeu o Prêmio Nobel da Paz —: o INF, Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário. Milhares de ogivas nucleares foram desarmadas por esse acordo, que a irresponsabilidade de dois homens deixou vencer: Trump e Putin.

Seu caminho acabou com o Muro de Berlim, que dividia o mundo no ódio ao inimigo. Abriu espaço para a modernização de grande parte da Europa, para uma expansão da democracia.

Mas, no processo, gerou muitos inimigos. Numa ironia do destino, ele, que liderara uma iniciativa contra o alcoolismo, teve um alcoólatra como nêmesis. Sua queda acabou de esfacelar a União Soviética, para o ressurgimento da velha e trágica Rússia.

Em 1996, em Nova York, entrei numa ótica em busca de um par de óculos. Gorbatchev fazia o mesmo. Nós nos saudamos e, com a ajuda do Vice-Cônsul Dario Campos, que fala russo, entre muitas línguas, relembramos os tempos que vivêramos e refletimos sobre o que vivíamos. Ele tivera durante muitos anos a sobrevivência do mundo nas mãos. Agora éramos apenas mais um par de turistas.

Mas, na História, ele terá um lugar alto entre os grandes estadistas do século 20.

José Sarney foi Presidente do Brasil, Presidente do Senado Federal, Governador do Maranhão, Senador pelo Maranhão e pelo Amapá e Deputado Federal. É o político mais longevo da História do Brasil, com mais de 60 anos de mandatos. É autor de 122 livros com 172 edições, decano da Academia Brasileira de Letras e membro de várias outras academias.

5 thoughts on “João Paulo II e Gorbachev

  1. NIVALDO LUIZ ROSSATO

    Texto brilhante com sempre são o que escreve o Presidente Sarney. Gorbachev, embora não reconhecido o seu valor por Putin, tem seu valor histório incontestável.

  2. CARMEN INES COLOMBO

    Que maravilha de texto e de memórias afetivas adquiridas quando em pleno exercício do poder. Isto requer um estado permanente de humildade para saber que no mundo, somos apenas turistas.

  3. MARIA LUCIA

    PRESIDENTE SARNEY CADA VEZ QUE LEIO O QUE O SR. ESCREVE APRENDO MAIS NOSSA !!! COMO AS AS PESSOAS QUE QUE TEM O PRIVILÉGIO DE CONVIVER E PARTILHAR A VIDA AO SEU LADO DEVE SE SENTIR ENRIQUECIDA TODOS OS DIAS.

  4. Fernando Belfort

    Dr. Sarney é um craque. Brinda-nos com outro belo artigo. Parabéns.
    Torno a insistir que esses artigos sejam reunidos em livro para que futuras gerações tomem também conhecimento.

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