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Josué Montello: sobre “Norte das Águas”

Josué Montello•

Da Academia Brasileira de Letras. Prefácio da 2a edição (1980).

 

      Norte das Águas

O autor deste livro conquistou renome internacional na vida pública brasileira — primeiro, como deputado federal, em seguida como governador do seu estado natal, o Maranhão; mais tarde, como senador, presidente da Arena e do PDS. Ou seja, um líder político indiscutível.

Se José Sarney não tivesse escolhido o caminho político para conseguir destaque no plano nacional, poderia ter feito isso, e bem antes, no campo da literatura, com sua pena de grande escritor. O que este livro de contos regionais vem comprovar.

Quando assumiu o governo do Maranhão, José Sarney foi eleito também para a presidência da Academia Maranhense. Mas, na realidade, nem seu jeito de fazer política era usual, nem seu estilo de escrever era acadêmico, no sentido de ser clássico ou convencional.

Como governador, no plano da vida econômica e administrativa realizou uma obra de importância excepcional para seu estado. O novo Maranhão, meta de seu programa de governo, demonstrou que no jovem político havia um administrador de altos méritos, capaz de levar adiante o plano de ação do qual o Maranhão tinha necessidade, para ajustar-se à política nacional de desenvolvimento.

Um dos grandes mestres do romance, Stendhal, dizia que a política na literatura era como um tiro de pistola em um concerto. José Sarney faz política e literatura ao mesmo tempo, e com a seguinte característica: como político, não é literato; e como homem de letras não é político.

Por isso sua literatura não é, em absoluto, comprometida. É autêntica literatura, no sentido mais alto e nobre da obra artística, e obra artística ajustada ao seu tempo, como criação e expressão técnica.

Mas também é verdade que, se não tivesse feito política, percorrendo o Maranhão de ponta a ponta, para conhecer os problemas e ouvir a população, o escritor José Sarney não teria acumulado toda essa experiência e todo esse conhecimento que encontramos em seus contos. Pois nesse mestre do conto, o saber maranhense é a própria substância novelesca. Ele é para o Maranhão o que Simões Neto é para o Rio Grande do Sul, ou o que Afonso Arinos é para Minas Gerais: a profunda identificação do escritor com sua terra e com sua gente deu a ele a matéria e o sentido da criação literária. Cumpre ressaltar que essa criação tem uma forma e um tratamento técnico da melhor qualidade.

Assim, Norte das Águas constitui, dentro da literatura regional, a revelação de um grande escritor. Mas a literatura regional que, por seu valor e por sua modernidade, tem curso e circulação nacional, na ordem da melhor literatura de língua portuguesa no Brasil.

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