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Solidão na solidão

Uma das indagações mais nebulosas que estão sendo feitas sobre as consequências posteriores da pandemia são os problemas mentais. Do corpo já se sabe quase tudo ou quase nada, mas quanto à cabeça só há especulação sem nenhuma comprovação. É certo que não se pode separar o corpo do espírito, nem este dele, a não ser numa meditação filosófica, como concebeu Descartes, que a alma e o corpo são duas substâncias separadas. Na visão fisiológica ele, corpo, é que determina o estado mental.

Uma constatação pessoal é da diferente vivência que se tem do isolamento — de que não se pode abrir mão —, não só a segregação residencial como o afastamento entre as pessoas, uma vez que a ciência quantificou em dois metros a distância entre interlocutores, mesmo com a obrigatória máscara, para evitar o risco de contágio.

Estou há um ano recolhido em casa e com uma rígida conduta para receber visitas de amigos — até mesmo de chatos é gostoso.

Habituado a ler e escrever, mergulhei quase todo meu tempo nessa melhor forma de vida que existe. Tive a felicidade de ao nascer ser privilegiado com a dádiva de um grande, maior e íntimo amigo, a quem eu quero bem e por quem tenho grande amor — até táctil, ao folheá-lo —, sua excelência, o livro. Daí me arrepia quando ouço que ele vai desaparecer e a geração do futuro só conhecerá sua forma digital. Eu considero o livro a maior descoberta científica da humanidade. Foi ele que transformou o mundo, a partir do tipo móvel, acabando com as limitações dos copistas. Cai e não quebra, pode ser lido em qualquer lugar — no banheiro, no carro, tomando o cafezinho —, não precisa de energia. E tem todos os programas de computador: por isso segundo Bill Gates foi o livro que fez o computador.

Ele combate a solidão e com ele nunca nos sentíamos sós. Era até uma terapia contra doenças e problemas. Mas sugiro aos psiquiatras examinar uma nova síndrome que está me apavorando: um cansaço da solidão que eu sabia espantar, um espaço para uma solidão na solidão da segregação e do medo, que a cada dia aumenta. Não é a que conhecíamos, que às vezes tinha até seus encantos, mas um tipo de tristeza e transfiguração que ameaça se intrometer na solidão, destruindo-a; mas mantendo-a mais profunda de uma maneira diferente que não sei definir.

Medo da morte? Não, da eternidade, como dizia Unamuno. Quando apareceu a Aids escrevi que essa doença desconhecida era a primeira que associava o amor à morte, ameaçando a fonte da vida. O Corona propõe uma incompatibilidade entre o amado e a amada, o estar junto, o sentir o corpo, o desfrutar da vida, colocando o receio da morte para nos separar do próximo. Foi o Cristo quem nos mostrou o próximo, no episódio do bom samaritano. Qual é a essência desta parábola? É o amor. Será que o Corona, ao trazer a morte, quer afastar o amor?

Isso é o pior, porque o amor é a essência do mundo, do homem e da mulher.

Deus nos retire deste sofrimento em que estamos mergulhados, que passou a ser a oração de cada dia — e estamos no extremo de não suportar.

O Brasil teve esta semana o recorde mundial de 1840 mortes num dia. Valha-nos, Deus!

10 thoughts on “Solidão na solidão

  1. Pedro Costa

    Danilo Gomes escreveu:
    Gosto muito dos artigos e dos livros do escritor José Sarney, um dos melhores Presidentes da República que o Brasil já teve. Ele governou o Brasil naquela difícil época da transição entre o governo militar e a transferência do poder central para um civil (ou paisano). Muito habilidoso, um diplomata. Foi um período bastante tumultuado. Vivi aquela época dentro do Palácio do Planalto, quando era assessor do Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República, jornalista Fernando César Mesquita. Tive também a satisfação de trabalhar com o mestre Joaquim Campelo Marques. Saúde para os queridos Presidente José Sarney e Dona Marly e família ! Atenciosamente, o velho jornalista Danilo Gomes, que tem a honra de participar, com o Presidente José Sarney, da Academia Brasiliense de Letras, presidida pelo escritor Fabio de Sousa Coutinho, também Presidente da Associação Nacional de Escritores-ANE, fundada em Brasília em 1963.

  2. Pedro Costa

    Irapoan Cavalcanti escreveu:
    Presidente Sarney

    O senhor faz muita falta neste momento do País.
    As questões filosóficas orientam os modelos operacionais.
    Infelizmente o País está carente de orientação.
    O abraço fraterno do

    Irapoan

  3. Pedro Costa

    Turíbio Santos escreveu:
    Prezados José e Pedro,
    Que artigo fabuloso!!! Sensível ,perfeito!!! Gente gosta de gente antes de qualquer outra coisa ou outro ser; quando José fala do livro penso imediatamente no instrumento musical, nas orquestras, nas gravações, vídeos, discos etc. A eletrônica está tirando a intimidade dos humanos com as infinitas artes e inevitavelmente nos brutalizando. Aconselho a todos meus amigos
    uma terapia com o violão: instrumento único pela sua intimidade mas dificílimo quando se trata de levantar sua minúscula voz do alto de um palco trazendo os poemas de Bach ou de Villa-Lobos. Obrigado José Sarney e protejam-nos os deuses das artes e de todas as músicas !!!

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