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Alfredo Fressia

Alfredo Fressia escreve sobre “O Dono do Mar” •

Poeta, escritor, ensaísta, tradutor e crítico literário. El Pais, Montevideo, 12 de abril de 1996.

 

Diálogo universal da condição humana

Começar uma novela com um sonoro insulto “Capitão?, Capitão é a puta que o pariu” pode não ser tão original na literatura latino-americana, desde o chamado boom. Mas que o insulto venha seguido pela contida emoção do relato de um padre que lava e prepara o corpo do filho assassinado, com o infinito amor paterno, criado a partir de cada detalhe desse corpo lentamente lavado, isso sim é literalmente audaz. O Capitão, “título dado pelo mar”, que não aceita ser chamado assim às sextas-feiras, o dia da semana que marcará os grandes acontecimentos de sua vida, é Antão Cristório, um pescador maranhense. E esse apaixonante romance sobre a pesca e o mar é O Dono do Mar, de José Sarney (Pinheiros, Maranhão, 1930), da Editorial Siciliana, de São Paulo.

 Contista Sarney

A obra narrativa de Sarney se limitava, até o surgimento de O Dono do Mar, aos contos de Norte das Águas (1970) e de Brejal dos Guajas e outras histórias (1985), que se inscreviam sem maior originalidade num gênero brasileiro de história já demasiado explorada: o regionalismo nordestino. Só que a tensão de José Lins do Rego e Graciliano Ramos, o trabalho de Guimarães Rosa com essa nova personagem que é a própria linguagem, os arquétipos telúrico-universais de Adonias Filho, a delicadeza de captações (e o humor) de José Cândido de Carvalho, entre tantas outras contribuições ao gênero, não deixavam espaço para ingenuidades, no tratamento do regionalismo nordestino.

Efetivamente, coronéis, beatos, cangaceiros, cantadores, jagunços, uma galeria de personagens míticos e já codificados pela tradição andava muitas vezes desorientada, pelos contos de Sarney. Neles havia crônica de costumes. Tudo subentendido por detrás de um regionalismo extremamente pitoresco, por vezes lírico, de cores exacerbadas, mas com um desenho esmaecido.

Se na vida política Sarney soube se adaptar às mais variadas condições impostas nos últimos 40 anos, até alcançar, de modo inesperado, a presidência da República, sua literatura também parecia navegar por todos os registros emocionais e por perspectivas heteróclitas da narrativa. Em  seus contos havia lugar para “coronéis” que resolvem antigos ódios com o sacrifício de algum animal, e com o acordo feito pelo padre da aldeia (Brejal dos Guajas, o único conto extenso, quase uma nouvelle), assim como havia lugar para o amor impossível que faz a filha do fazendeiro escolher a morte (Merícia do Riacho Bem-querer), ou pintura exata da maldade do latifundiário, exercida contra um pobre arrendatário (Joaquim, José, Margarido, filhos do Velho Antão). Se criação de perfis nunca era muito bem definida, um conto de qualidade, como Os Bonsdias, de um humor finíssimo, apresentava três personagens integradas em uma espécie de única personalidade preguiçosa, que “era formação real do corpo que não tinha disposição para essas necessidades do trabalho”.

Era, por fim, uma literatura variada e irregular, na qual o código regionalista afogava muitas vezes a universalidade da emoção estética. Faltava a Sarney o aprofundamento do regionalismo, e talvez o espaço de maior fôlego, de uma novela. Isso é o que O Dono do Mar parece ter conseguido.

Um Realismo Mágico

Efetivamente, O Dono do Mar, pela amplitude do tema, exigia o espaço da novela que o narrador inscreve em um âmbito que supera o “regionalismo nordestino” e a coloca em outra “tradição”, aliás não muito distante: a do realismo mágico latino-americano. Sarney descreve e narra um mundo marítimo e uma ação épica de um realismo vivo e nítido, situado em um âmbito geográfico bem determinado, o chamado Golfo Maranhense, com suas ilhas e seus arrecifes. O autor não hesita em recorrer ao jargão dos pescadores maranhenses, tão carregado de locuções regionais, que o Editor se viu obrigado a incluir um Glossário, nas últimas páginas do livro. Mas nesse relato a abordagem realista constrói um universo habitado por navios fantasmas, onde, à maneira de Rulfo os vivos podem estar mortos e os mortos podem renascer; no qual a noite traz o passado, junto com marés, e os barcos naufragados em outros séculos voltam
a sulcar os mares. Essa incorporação realista (pela técnica e pela minúcia) da fantasia e da magia do mar leva com frequência as personagens a se perguntar se as aparições noturnas são realidade ou ilusão. Elas são sempre realidade, ainda que as mesmas personagens que interroguem possam estar mortas. Elas são realidade porque a técnica realista do narrador se aplica a um mundo cheio de vida, é verdade, sempre instalado à beira da magia, onde o presente e o passado secular podem coexistir, tudo pautado pelas duplicidades do mar e suas sereias.

Sarney, que inclui em sua matéria narrativa todas as lendas e crenças dos pescadores do Maranhão, incorpora também um mundo “culto” de aparições ilustres, a começar pelo fantasma de Gonçalves Dias, o poeta romântico maranhense naufragado diante de sua terra, na volta de uma viagem à Europa. Essa é a primeira das “aparições”, uma espécie de homenagem ao Poeta, que assina também o tom lírico que atravessa o relato.

Os Habitantes do Mar

O romance se estrutura em episódios que vão formando o nascimento, a vida e a morte de Antão Cristório, pescador do Golfo. Mas a narrativa nem sempre respeita a ordem cronológica dessa vida e dessa morte, o que contribui para o “estranhamento” mágico que pauta o romance. A fauna fantástica do mar inclui os piocos, malignas criaturas que saem do mar para violar e matar as jovens virgens nos portos, que são obrigadas a se proteger deles. Assim é que vai desaparecer Quertide, a “donzela” amada pelo jovem Cristório, e a história da vingança dele contra os piocos será um dos eixos épicos da narrativa.

Mas o pescador não está sozinho, em sua luta. Aquele mar, sulcado em certas noites por barcos franceses, daqueles que invadiram o Maranhão para fazer de Luís XIII rei da França, Navarra e Maranhão, e pelo próprio Barco da Morte, esse sim fatal. Além disso, esse mar entregará a Cristório dois amigos que o narrador incorpora permanentemente a ação. Esses amigos são o jovem Querente, que atravessa os mares há séculos, e o velho Aquimundo (“Sou Aquimundo, o tempo. Cristório, não adianta fugir, que eu vou embarcar com você. Quero ir ao mar e desistir desse tempo que não me deixa morrer”). Querente e Aquimundo são eternos, e ao lado de Cristório enfrentarão seus inimigos, que podem vir de qualquer lugar do passado.

O mar também entrega a Cristório uma mulher, que pode aparecer em qualquer recife, e até mesmo dentro de sua barca. Ela é Maria das Águas, que se apresenta assim: “Sou puta. Aos piocos só agradam as donzelas” (p.73). Mas será uma espécie de sereia, naquele mar que Cristório conhece, mas que, sem dúvida, o surpreende sempre.

As duplicidades do mar também contaminam a vida do pescador em terra-firme, que acaba se casando com Camborina, a mulher que não consegue se separar da irmã. Na noite do casamento, Camborina oferece a irmã para o pescador, que vai ter filhos com ambas.

Finalmente, e como para aumentar a carga mágica do relato, o outro eixo narrativo é o amor, que a seu modo chega a ser físico, entre Cristório e sua barca, Chita Verde, nome que menciona indiretamente Quertide, a jovem amada e morta pelos piocos. Chita Verde salva Cristório dos perigos míticos do mar e também incorpora, pouco a pouco, todo o lado humano, que a levará a ter ciúmes do dono (e a ser objeto de ciúmes de uma das mulheres do pescador). Cristório e Chita Verde envelhecerão juntos, e quando Chita Verde “morrer”, esse também será o fim do pescador, que perde o gosto pela vida.

É evidente que os fantasmas e os monstros que habitam o mundo mítico de O Dono do Mar são também as pulsões obscuras e às vezes luminosas que habitam o ser humano, e é por isso que esse romance não se excede em nada o barroquismo, nem cai no vão matiz de certos precedentes do autor. Com base no “regionalismo” desses pescadores do Golfo
Maranhense, o escritor Sarney acede aqui ao diálogo universal da condição humana com os mares exteriores e interiores, regiões seguras para um lirismo intenso: “É o mar, aqui está o mar. Ele acontece como o mundo, as pessoas e tudo. Derrama-se como a noite sobre a terra e sobre tudo que nela existe. O mar é como se fosse a natureza derretida que cai sobre todas as coisas e sobre todos os viventes. O mar é como o sereno, o vento, a nuvem, o tempo. Entra e sai. É a vida e a morte. Coisas que acontecem não voltam. O mar caminha na cabeça dos pescadores. É um sonho e é um peixe.”

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