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Eu e o Zé Gotinha

Disseram-me que o grande médico brasileiro Dr. Dráuzio Varella declarou que quem inventou o SUS era um gênio. E um constituinte de 88 declarou com estardalhaço que a maior obra da Assembleia Constituinte foi a universalização da saúde.

Estou acostumado a me roubarem meus projetos e realizações. Por 20 anos apresentei vários projetos sobre incentivos à cultura. Só passou o último, e porque eu era Presidente da República, e assim pude sancioná-lo. Os artistas colocaram o nome de Lei Sarney. Ninguém tinha abordado o problema da cultura como eu o fizera. Pois bem, quando saí do governo, a primeira coisa que fizeram foi tirar o meu nome, e para isso revogaram a lei e apresentaram um projeto quase igual. Eu não reclamei, apenas disse que, para voltar a Lei da Cultura, eu votava qualquer lei.

O mesmo aconteceu com o vale-transporte, o vale-alimentação, o 13º salário para os funcionários civis e militares, a Lei da AIDS, a aposentadoria para o homem do campo e tantas outras iniciativas sociais. Agora é a vez do Zé Gotinha, meu velho amigo, companheiro de muitas campanhas de saúde. Botaram nele cabelo, uma máscara azul horrível e tacaram no peito SUS.

O SUS nasceu SUDS, durante o meu governo, bem antes da Constituinte. Tendo como sogro um grande e famoso médico do Maranhão, Dr. Carlos Macieira, e cunhado e tios por afinidade também médicos, desde cedo aprendi a conhecer os problemas de saúde. Em 1986, antes de completar um ano de presidência, realizava-se a 8ª Conferência Nacional de Saúde, presidida por Sergio Arouca, que era diretor da Fiocruz e muito ajudou no meu governo. Como ele era comunista — naquele tempo isso era marca do diabo —, a conferência era maldita. Aconselharam-me a não comparecer. Lá estive, a prestigiei e ouvi vários pronunciamentos que pediam a universalização da saúde. Um pobre não tinha onde tomar uma injeção senão nas instituições de caridade.  Ora, eu não achava justo que a saúde fosse direito só de quem tinha dinheiro e podia pagar tratamento. Bolamos então a criação de um programa que estendia tratamento a todos. Acrescentei no meu discurso criar assistência médica para todo o povo brasileiro. Criamos o SUDS: Sistemas Unificados e Descentralizados de Saúde. A Constituinte substituiu o nome para SUS e tomou conta dele. Esqueceram-se de que já existia.

 Quando das campanhas de saúde, a começar pela de erradicação da paralisia infantil com a vacina Sabin, como havia resistência em tomar a vacina, resolvemos fazer um concurso em todas as escolas do País para um símbolo da campanha, promovido pelo Ministério da Saúde. Foi criado então o Zé Gotinha. Popularizamos e foi um sucesso. Pois agora me tomaram. Muito antes, quando Governador do Maranhão, em 1966, na campanha de erradicação da varíola, criei — com a direção médica do grande sanitarista, hoje esquecido, Dr. Cláudio Amaral — os comícios da saúde. Eram grandes eventos, em praça pública, com dezenas de vacinadores.

Eu me lembro da Conferência de 66, quando eu disse: “Aqui se define hoje um novo sistema de saúde para o Brasil.” Saúde para todos. Hoje se chama-se SUS.

Agora me tomam o Zé Gotinha. Que tomem, desde que ele continue com sucesso a ajudar a vida, chamando o povo para se vacinar contra a Covid. Que todos se vacinem, como pede a Ciência.

4 thoughts on “Eu e o Zé Gotinha

  1. Raquel Naveira

    Sim, o Zé Gotinha é símbolo de uma vacinação organizada, massiva, vencedora.
    Que ele volte e a vacina chegue a todos.

  2. Luiz Henrique Fonseca

    Parabéns Presidente Sarney, o Brasil precisa respeitar a História. O atual (des)governo copia e deturpa campanhas exitosas, tais como a do Zé Gotinha criada no seu Governo (esse sim com G maiúsculo).

  3. Glauco Pessoa Wu

    “O homem bom, do seu bom tesouro, tira coisas boas” (Mateus 12:35)
    Os aplausos morrem. Os prêmios enferrujam. As realizações são esquecidas.
    As pessoas que mudam vidas não são as que têm credenciais, e sim aquelas que deixam um legado duradouro, quiçá eterno. Eis que a figura do nosso Excelentíssimo Ex-Presidente ou para muitos nosso eterno Presidente se enquadra perfeitamente, onde o legado construído em vida é intangível e imensurável e está ligado a aspectos essenciais à riqueza do universo e aos valores da vida, voltados para agregar bem estar e valor na vida das outras.

  4. Sérgio

    Em 2011, o chefe de gabinete da Presidência do Senado alertou para a importância de se comemorarem os vinte e cinco anos da criação do Zé Gotinha, imagem marcante da exitosa busca pela erradicação da poliomielite neste país, a fim de que não se perdesse sua “paternidade”, a exemplo do ocorrido com a Lei Sarney.
    A ideia, contudo, não prosperou.
    Hoje, deturpa-se o símbolo (originariamente dirigido às crianças, como seu amigo e aliado), impondo-lhe uma família, absolutamente desconectada da motivação de sua existência.
    Zé Gotinha não poderia ser alvo de reprodutibilidade para ilustrar qualquer outra campanha, em especial as de imunização. Entretanto, emanada de quem é, e de quem teve como marqueteiro um Wejntraub, não se podeia exigir nenhuma atitude similar ao uso do bom-senso.
    Ademais, o símbolo da imunização contra a pólio é uma diminuta gota, em nada equivalente à administração dos 0,5ml injetáveis dos atuais imunizantes.

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