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Josué Montello: sobre “O Dono do Mar”

Josué Montello•

Da Academia Brasileira de Letras. Folha de S. Paulo, 3 de dezembro de 1995.

 

No tom das obras definitivas

O presidente José Sarney, não obstante os muitos caminhos de sua vida pública — que o trouxeram da província natal para a Presidência da República, e daí para a Presidência do Congresso — continua fiel à sua vocação de escritor. Foi essa vocação que o levou à Academia Brasileira, para suceder a José Américo de Almeida, também político e homem de letras, ambos fiéis ao chão de suas origens, sem deixar de serem grandes nomes nacionais, profundamente identificados com a realidade brasileira.

A condição de maranhense, numa época em que só havia em São Luís monumentos a homens de letras (ou a políticos que com estas se identificaram), explicaria a vocação literária de Sarney, e que nele despontou ainda na adolescência, dando-lhe o gosto do verso lírico, na mesma geração de Bandeira Tribuzzi e Ferreira Gullar, seus amigos e companheiros.

Se eu não tivesse acompanhado de perto a evolução do escritor José Sarney, testemunhando igualmente a evolução paralela de sua carreira política, estaria a surpreender-me com O Dono do Mar, seu primeiro romance, agora publicado. E facilmente concluo que é precisamente o político que nele explica o romancista — com a singularidade de que, a rigor, não há política no seu romance.

Está claro que, ao falar em política, me refiro ao conjunto de experiências que se sucedem, com base no apoio popular, para alcançar o poder, como forma de plenitude pessoal. Porque foi o tirocínio constante da atividade política, assim entendida, que levou José Sarney a uma realidade humana que só por esse tirocínio poderia realmente conhecer, para daí extrair a narrativa com que se fez romancista, e nos dar agora o seu livro mais importante. Aquele que, suplantando as obras anteriores, lhe abre um espaço definitivo na ficção de língua portuguesa.

Sem adentrar-se nessa realidade regional, para conhecê-la e dominá-la, não teria o escritor demarcado ali o seu novo espaço, assenhoreando-se das almas, das paixões, dos conflitos, dos desencontros, em que a condição humana é primitiva e culta, na sequência dos contrastes que Unamuno definiria como sentimento trágico da vida.

Eu aconselharia o leitor comum, sem o domínio da realidade regional que inspirou O Dono do Mar, a ler o romance de José Sarney do fim para o princípio, dominando primeiro o seu vocabulário; em seguida, o elenco de personagens, que se elevam a 131, e, por fim, inteirando-se do cenário romanesco, situado no chamado Golfão Maranhense, e que compreende as baías de São Marcos e São José, além de Panaquatira e o arquipélago de Santana.

Assim como Guimarães Rosa incorporou, no plano romanesco, com Grande Sertão: Veredas, à nossa geografia literária, todo um amplo espaço das Gerais, Sarney incorpora, com seu romance, à geografia literária do Maranhão, toda uma vasta região que compõem, conforme ele próprio acentua, “o complexo geográfico de variadas características e fauna e flora diversificados, reino das bianas e igarités dos pescadores do Maranhão”.

Estou certo de que o livro de Sarney, pelo mundo que nos revela, pela intensidade dos dramas que nos faz viver, e pela variedade de tipos e situações que recria, abre um espaço novo no romance regional brasileiro, alargando veredas para que se debrucem sobre seu texto os pesquisadores e os cientistas e estes ao fim reconhecerão que, na variedade de figuras e cenas que o romancista nos apresenta, irrompe uma realidade nova, que transcende os limites puramente literários.

Cumpre-nos assinalar que a variedade de nomes novos, que figuram na nominata dos personagens de Sarney, aproxima-se, em boa parte, da nominata que Teófilo Braga publicou em Portugal, em 1889, no seu livro Nomes de Batismo.

A princípio imaginei que estaria no livro português a concordância dos nomes de batismo do romance de Sarney. Mas não tardei a constatar que, em O Dono do Mar, a singularidade sobreleva a nominata do livro de Teófilo. Se neste aparecem um Andoendo, um Ansílio, um Ansiulfo, para não sairmos da letra A, aparecem no livro do mestre brasileiro um Amadaceu, um Aquimundo, um Arduto, um Armindeu, indicativos
de que, em terras do Maranhão, o elenco dos nomes de batismo, recolhidos ou criados pelo romancista brasileiro nos faz sentir a legitimidade dessa nominata, bem próxima, por vezes, da nominata do livro de Teófilo Braga.

Assinalo essa aproximação para que me melhor se identifique a legitimidade dos nomes de batismo que figuram em O Dono do Mar. Sarney nos dá, assim, um livro extremamente rico, na autenticidade de sua formulação cultural. O que ali está tem a marca da sabedoria. É obra genuína que o político recolheu no Maranhão, em contato com o povo das praias e dos mares, para dali trazer o seu mais belo livro.

O romance, quer no seu tema, quer na sua construção, tem o vigor da obra amadurecida. Traz em si a singularidade de seu tema, aliada ao tom lírico que nos conduz por múltiplos caminhos, como se a viração da praia nos fosse levando, para nos lançar mais adiante no turbilhão das ondas revoltas, sempre no tom das obras definitivas.

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